Por Costa Nova Associados
Série A conta da eleição
A campanha presidencial também tem uma conta própria. Até 9 de setembro de 2026, seis candidatos somavam aproximadamente R$ 91,8 milhões em receitas declaradas à Justiça Eleitoral, segundo levantamento da Folha de S.Paulo feito a partir do DivulgaCandContas. O dinheiro estava concentrado: Flávio Bolsonaro registrava R$ 44,3 milhões e Lula, R$ 35,9 milhões. Juntos, respondiam por cerca de 87% do total desse recorte.
O cálculo da Costa Nova usa os valores arredondados publicados pela reportagem. Ronaldo Caiado aparecia com R$ 6,6 milhões, Romeu Zema com R$ 3,4 milhões, Renan Santos com R$ 1,3 milhão e Augusto Cury com R$ 317 mil. A soma não representa todo o dinheiro da eleição, apenas as receitas registradas pelas seis campanhas comparadas na data de corte.
Receita declarada não é voto
A concentração mostra diferença de escala financeira, mas não deve ser transformada em ranking eleitoral. Receita não mede intenção de voto, qualidade do programa, capacidade de persuasão ou eficiência do gasto. Uma campanha pode ter grande estrutura paga e desempenho modesto. Outra pode mobilizar redes partidárias, militância ou alcance orgânico com menos dinheiro contabilizado.
Também é necessário separar entrada e saída. O valor recebido não equivale ao valor contratado, e o contratado não equivale necessariamente ao que já foi pago. Para entender a situação financeira de cada candidatura, é preciso acompanhar pelo menos cinco informações: origem do recurso, data do recebimento, despesas contratadas, despesas pagas e saldo disponível.
A origem muda o significado da cifra
A Lei 9.504/1997 estabelece as fontes admitidas e as regras gerais do financiamento eleitoral. No retrato publicado em 9 de setembro, a maior parte dos recursos de Flávio Bolsonaro e Lula vinha do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, distribuído pelos partidos. Portanto, o volume dessas duas candidaturas não revela apenas capacidade de captar doadores privados. Ele também reflete decisões internas sobre a alocação de dinheiro público entre disputas presidenciais e proporcionais.
Nos demais casos, o perfil era diferente. Renan Santos tinha arrecadação majoritariamente vinculada ao financiamento coletivo. Augusto Cury havia recebido R$ 50 mil do fundo eleitoral e declarado R$ 250 mil de recursos próprios dentro de um total de R$ 317 mil. A Folha informou ainda que o Avante avaliava ampliar o financiamento da candidatura depois de seu crescimento nas pesquisas. É uma discussão partidária relatada, não um repasse já confirmado.
As fontes não são equivalentes. Fundo eleitoral é dinheiro orçamentário entregue aos partidos segundo critérios legais e partidários. Recurso próprio expõe o patrimônio do candidato aos limites da legislação. Doação de pessoa física e financiamento coletivo dependem de apoiadores identificados e de registros individualizados. Misturar tudo em uma única cifra oculta como a campanha foi financiada.
O que mais dinheiro permite fazer
Recursos ampliam a capacidade de comprar mídia, produzir peças, viajar, contratar pesquisas, manter equipes de dados, comunicação e jurídico, além de organizar eventos. Essa estrutura pode aumentar frequência e alcance das mensagens. Ainda assim, o efeito depende do preço contratado, da execução, da qualidade do conteúdo e da resposta do eleitor.
Por isso, a análise financeira não deve saltar da receita para uma conclusão política. O dado sustenta uma afirmação específica: até a data de corte, as duas campanhas líderes no recorte operavam com uma escala de arrecadação muito superior à das quatro seguintes. Não sustenta a afirmação de que o resultado eleitoral esteja comprado, definido ou proporcional ao dinheiro recebido.
Um retrato ainda provisório
O DivulgaCandContas é atualizado à medida que campanhas enviam registros, retificações e novos repasses. Os números podem mudar antes da prestação parcial e continuar mudando até a prestação final. Comparações futuras precisam manter a mesma data de corte e distinguir receita declarada de despesa efetivamente paga.
A conta da campanha, portanto, não termina no total arrecadado. A pergunta completa é quem transferiu, quando o dinheiro entrou, em que foi comprometido e quanto restou. No retrato de 9 de setembro, a conclusão é clara e limitada: havia forte concentração financeira nas duas maiores campanhas, sem que isso autorizasse transformar reais em votos.
Data de corte: 9 de setembro de 2026, 21h45 de Brasília. Valores nominais declarados, arredondados pela fonte jornalística. Percentuais calculados pela Costa Nova Associados sobre o conjunto de seis candidatos.
Fontes
- Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais, Tribunal Superior Eleitoral, consulta em 9 de setembro de 2026.
- Flávio Bolsonaro lidera doações eleitorais com R$ 44 mi; Lula recebeu R$ 35,9 mi, Folha de S.Paulo, 9 de setembro de 2026.
- Avante tenta sustentar alta de Cury para ampliar bancada e avalia mais financiamento, Folha de S.Paulo, 9 de setembro de 2026.
- Lei 9.504/1997, Presidência da República, texto vigente consultado em 9 de setembro de 2026, regras de arrecadação e financiamento eleitoral.

