Série A conta da eleição
Por Costa Nova Associados
Data de corte: 4 de outubro de 2026, às 6h45 de Brasília.
A promessa tem taxa, limite e tamanho inicial
O programa de governo de Augusto Cury, registrado no Tribunal Superior Eleitoral, propõe um Banco do Empreendedor com crédito de até R$ 20 mil e juros de 5% a 6% ao ano. O desenho aparece em duas partes do documento. Primeiro, como componente de uma estrutura federal de empreendedorismo. Depois, dentro do projeto Comunidades Empreendedoras, com uma escada de crédito de R$ 2 mil, R$ 5 mil, R$ 10 mil e R$ 20 mil.
A progressão dependeria do uso produtivo do dinheiro e do histórico de pagamento. O crédito poderia financiar equipamentos, ferramentas, tecnologia, estoque inicial e capital de giro. A meta anunciada é alcançar pelo menos 2 milhões de pequenos empreendedores e negócios em dez anos, não em um mandato presidencial. O prazo original precisa ser preservado porque iniciar a plataforma em quatro anos não equivale a entregar a meta de dez anos.
Não é apenas um anúncio genérico
O plano indica uma capitalização inicial de R$ 30 bilhões a R$ 50 bilhões para o Fundo ou Banco do Empreendedor. A operação seria feita por uma rede composta por bancos públicos e privados, cooperativas de crédito, fintechs e agentes locais. Parte do fundo funcionaria como capital rotativo, pois os pagamentos retornariam para novas operações. Outra parte poderia servir como garantia para ampliar a capacidade de financiamento.
O documento também afirma que o governo assumiria apenas parte do risco. Essa frase é importante, mas ainda não fecha a conta. Não há divisão definida entre Tesouro, instituições operadoras e eventuais fundos existentes. Tampouco foram fixados prazo dos contratos, carência, limite de inadimplência, regra de provisionamento, remuneração dos agentes financeiros ou custo de assistência técnica.
O que a taxa básica mostra
Na reunião encerrada em 16 de setembro de 2026, o Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano. A taxa de 5% a 6% prometida por Cury fica, portanto, entre 7,75 e 8,75 pontos percentuais abaixo da taxa básica.
Essa diferença não deve ser tratada como comparação entre Selic e crédito de varejo. A Selic não é a taxa cobrada de um microempreendedor e não incorpora risco de inadimplência, custo operacional, tributos e margem da instituição. Ela serve aqui como referência mínima do ambiente de financiamento. Para ofertar crédito produtivo abaixo desse patamar, o programa precisará combinar capital público barato, garantia, subsídio, remuneração reduzida dos operadores ou alguma dessas alternativas.
Quanto daria a parcela
Em simulação própria, um financiamento de R$ 20 mil por 24 meses, sem tarifa, seguro ou carência, produziria prestação de R$ 876,43 com taxa efetiva de 5% ao ano. O total pago seria R$ 21.034,40. Com taxa de 6% ao ano, a prestação seria R$ 884,98 e o total chegaria a R$ 21.239,53.
O cálculo usa o sistema Price. A taxa mensal foi obtida pela fórmula (1 + taxa anual) elevada a 1/12, menos 1. A prestação resulta de PV × i ÷ [1 − (1 + i) elevado a menos n]. PV é R$ 20 mil, i é a taxa mensal efetiva e n corresponde a 24 parcelas. Trata-se de uma simulação, não de preço efetivo anunciado pela campanha, porque o programa não informa o prazo contratual.
Já existe base legal para microcrédito
A Lei 13.636/2018 instituiu o Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado. O texto vigente admite bancos públicos, bancos comerciais, cooperativas, agências de fomento e sociedades de crédito ao microempreendedor entre os operadores. Também prevê recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador, de depósitos à vista e do Orçamento Geral da União.
Essa estrutura reduz o obstáculo jurídico e administrativo. O desafio não é começar do zero, mas definir se o Banco do Empreendedor seria uma nova instituição, um fundo, uma plataforma sobre o programa existente ou um conjunto de linhas contratadas com operadores. O próprio plano prefere uma plataforma nacional e rejeita uma estrutura burocrática grande, escolha que pode acelerar a implantação, desde que as regras de risco e fiscalização sejam detalhadas.
O que pode ser concluído
Fato documentado: há limite de crédito, faixa de juros, escada de acesso, meta de beneficiários, horizonte de dez anos e faixa de capitalização inicial. Cálculo próprio: as prestações de 24 meses e a distância para a Selic. Hipótese: a necessidade de subsídio ou garantia decorre da taxa prometida estar abaixo do custo básico do dinheiro, mas o formato fiscal ainda não foi definido. Opinião editorial: o programa é mais detalhado do que uma promessa genérica de crédito barato, porém ainda precisa converter números nacionais em orçamento anual, critérios de elegibilidade e governança financeira.
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Fontes
- Tribunal Superior Eleitoral, Planos de governo dos candidatos ao cargo de Presidente da República, Eleições 2026, consulta em 4 de outubro de 2026. Programa de Augusto Cury, páginas 98, 108 e 111. https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/arquivos/proposta-avante
- Banco Central do Brasil, Copom reduz a taxa Selic para 13,75% ao ano, 281ª reunião, 16 de setembro de 2026. https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/comunicadoscopom
- Presidência da República, Lei 13.636, de 20 de março de 2018, texto compilado consultado em 4 de outubro de 2026. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13636.htm
- Folha de S.Paulo, Com maior patrimônio entre presidenciáveis, Cury defende criar 10 mil clubes de empreendedorismo, 29 de agosto de 2026, atualizada em 31 de agosto de 2026. https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/08/com-maior-patrimonio-entre-presidenciaveis-cury-defende-criar-10-mil-clubes-de-empreendedorismo.shtml
Execução em 4 anos: 🟡 amarelo 6/10, há base legal e rede financeira existentes, mas faltam fonte orçamentária definida, modelo de risco e cronograma do primeiro mandato. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.
Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 2, financiamento 1, capacidade administrativa 2, condições técnicas e econômicas 1, cronograma de quatro anos 0. A meta completa tem prazo declarado de dez anos. Nota provisória, confiança média baixa.

