Transações em blockchain podem permanecer visíveis por tempo indeterminado, mas isso não torna simples provar quem controlava uma carteira ou recuperar os valores transferidos. A perícia em ativos digitais exige combinar registros públicos da rede com documentos, dispositivos, contas em exchanges, fluxos bancários e contexto patrimonial.
O relatório global da ACFE de 2026 destacou o uso de criptoativos em casos de fraude ocupacional, inclusive para movimentação e lavagem de recursos. Ao mesmo tempo, a adoção crescente de ativos digitais ampliou a necessidade de profissionais capazes de interpretar transações sem confundir rastreabilidade técnica com prova conclusiva de titularidade.
O que a blockchain efetivamente demonstra
- endereço remetente e destinatário;
- identificador da transação;
- data ou bloco de confirmação;
- ativo, quantidade e taxas;
- sequência de movimentações posteriores;
- interação com contratos, pontes e protocolos.
Esses dados demonstram o movimento entre endereços. Não identificam automaticamente a pessoa física ou jurídica que possuía as chaves, nem explicam a causa econômica da transferência.
Do endereço ao titular
O vínculo patrimonial é construído por convergência de evidências. Entre as fontes possíveis estão:
- cadastro e histórico de contas em exchanges;
- ordens de compra, venda e saque;
- transferências bancárias para aquisição dos ativos;
- endereços salvos, QR codes e listas de contatos;
- arquivos de carteira e registros em dispositivos;
- e-mails, mensagens e instruções de transferência;
- declarações fiscais e registros contábeis;
- confissões, contratos, notas e documentos de custódia.
Heurísticas de agrupamento podem sugerir que endereços são controlados pela mesma entidade, mas precisam ser explicadas e corroboradas. Serviços de mistura, carteiras compartilhadas, exchanges e protocolos podem produzir relações aparentes que não correspondem a um único titular.
A linha do tempo financeira
A perícia reconstrói a sequência desde a origem do dinheiro fiduciário até a última movimentação identificável:
- saída da conta bancária ou conversão de outro ativo;
- crédito na plataforma ou aquisição direta;
- compra do criptoativo;
- saque para carteira externa;
- transferências, conversões, pontes ou protocolos;
- depósito em outra plataforma;
- eventual conversão e retirada para o sistema financeiro.
Cada etapa deve ser ligada por valores, horários, taxas, identificadores e documentos. Diferenças podem decorrer de volatilidade, taxas, conversões ou fracionamento, e não devem ser tratadas automaticamente como desaparecimento de valor.
Preservação da prova
Capturas de exploradores são úteis para visualização, mas a equipe deve registrar rede, endereço, transação, bloco e data da consulta. Arquivos fornecidos por exchanges devem ser preservados em formato nativo, com hash e origem documentada. Dispositivos e frases-semente exigem protocolos de segurança rigorosos para não movimentar ou expor os ativos.
Avaliação e quantificação
O valor depende do objeto da perícia. Pode ser necessário mensurar na data da operação, do desvio, do bloqueio, da citação, da recuperação ou em outra data definida pelo título. A fonte de preço, o par de negociação, a moeda, o horário e a liquidez devem ser explicitados.
- quantidade original e quantidade recuperada;
- ativos convertidos ao longo do fluxo;
- taxas de rede e corretagem;
- preços em fontes verificáveis;
- ativos ilíquidos ou sem mercado confiável;
- diferença entre perda nominal e valor atualizado conforme o critério jurídico aplicável.
Custódia e controle
Quem possui a chave pode movimentar o ativo, mas o controle técnico não resolve sozinho a titularidade jurídica. Carteiras corporativas podem ser administradas por empregados, prestadores ou sistemas de múltiplas assinaturas. A perícia deve examinar políticas, aprovações, chaves, logs e segregação de funções.
Blockchain prova o percurso entre endereços. A titularidade e a causa econômica dependem de evidência fora da rede.
Limites da recuperação
Rastrear não equivale a bloquear ou recuperar. A possibilidade prática depende de localização, custódia, cooperação de intermediários, medidas jurídicas, jurisdição e disponibilidade dos ativos. O laudo deve separar claramente o que foi identificado, o que foi inferido e o que permanece sem confirmação.
Conclusão
A investigação de ativos digitais combina ciência de dados, contabilidade, documentação e análise patrimonial. Uma conclusão robusta preserva a cadeia de custódia, evita inferências excessivas e demonstra o fluxo com precisão suficiente para que terceiros possam verificá-lo.
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