Por Costa Nova Associados
Série A conta da eleição, data de corte: 7 de setembro de 2026, às 17h.
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O programa de governo de Wilson Grassi, registrado no Tribunal Superior Eleitoral, propõe substituir nove tributos federais por um Imposto Único Federal cobrado automaticamente sobre lançamentos bancários. O parâmetro público é de 2% no débito e 2% no crédito. A proposta também eleva a faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física para cinco salários mínimos.
O plano oferece números suficientes para uma primeira conferência. Segundo o documento, os tributos substituídos representam R$ 1,562 trilhão por ano. A ampliação da isenção do Imposto de Renda custaria mais R$ 266 bilhões. O novo tributo precisaria, portanto, entregar R$ 1,828 trilhão anuais.
O ponto que precisa ser esclarecido aparece quando essa meta é comparada à base anunciada. O programa soma R$ 59,7 trilhões movimentados no primeiro semestre de 2025 e R$ 68,2 trilhões no segundo. O total de R$ 127,9 trilhões está confirmado pelas estatísticas do Banco Central para os dois períodos.
Volume de pagamentos não é base tributável pronta
Dividir R$ 1,828 trilhão por R$ 127,9 trilhões produz 1,43%. Essa é a razão entre a arrecadação pretendida e todo o volume de pagamentos citado. O programa usa essa relação para afirmar que a receita necessária equivale a cerca de 1,4% do que circulou pelo sistema.
O próprio plano, porém, define o parâmetro de 2% no débito e 2% no crédito de cada lançamento. Quando as duas pontas de uma transferência são tributadas, a incidência bruta equivale a 4% do valor transferido. Se esse percentual fosse aplicado mecanicamente a todos os R$ 127,9 trilhões, o resultado bruto seria R$ 5,116 trilhões. Isso não é previsão de arrecadação, pois ignora exclusões, devoluções, mudança de comportamento e a própria definição legal da base. É uma simulação destinada a mostrar que os dois parâmetros não podem ser tratados como equivalentes.
Para arrecadar R$ 1,828 trilhão com incidência bruta de 4%, a base efetivamente tributada teria de ser R$ 45,7 trilhões. Esse valor representa 35,7% dos R$ 127,9 trilhões citados. A diferença pode refletir exclusões legítimas, duplicidades nas estatísticas de pagamentos, operações financeiras que não representam compra de bens ou serviços, devoluções e respostas dos contribuintes. O plano reconhece vários desses riscos, mas ainda não publica uma ponte quantitativa entre o volume divulgado e a base que seria alcançada pela lei.
O que precisa entrar no estudo de impacto
As estatísticas do Banco Central reúnem instrumentos com funções diferentes, como Pix, TED, boletos, cartões, transferências intrabancárias e saques. Um mesmo real pode circular várias vezes no ano. Liquidação de empréstimo, compra e venda de ativos, transferência entre contas do mesmo titular e pagamento por uma cadeia de fornecedores não produzem a mesma capacidade econômica. Somar movimentos é adequado para medir uso do sistema de pagamentos, mas não basta para definir quem suportará a carga tributária.
O programa prevê devolução para exportadores, tratamento específico para cadeias longas, transição gradual, revisão automática e restrições ao dinheiro em espécie. Essas salvaguardas mostram que a candidatura conhece os principais problemas do modelo. Falta quantificar quanto cada tratamento retira da base e quanto custa administrar compensações e restituições.
A incidência em cascata também altera a distribuição da carga. Empresas integradas, que realizam etapas dentro da mesma estrutura, podem movimentar menos contas do que redes de fornecedores independentes. Sem compensação precisa, duas empresas com o mesmo valor adicionado podem pagar montantes diferentes. Para famílias, o efeito líquido depende da combinação entre o tributo cobrado em cada movimento, a retirada de impostos hoje embutidos nos preços e a nova faixa do Imposto de Renda.
De promessa a norma
O estágio atual é programa eleitoral registrado no TSE. O plano promete enviar uma proposta de emenda à Constituição no primeiro semestre do mandato, seguida de lei complementar e redesenho das transferências federativas. Ainda não é proposição protocolada, norma vigente ou execução comprovada.
Uma emenda constitucional exige três quintos dos votos em dois turnos na Câmara e no Senado. A retenção bancária é administrativamente possível, mas o pacote completo envolve extinguir tributos, redefinir obrigações, criar restituições, proteger receitas compartilhadas e concluir a transição dentro do mandato. O cronograma existe. A base quantitativa que sustentaria a neutralidade de arrecadação ainda precisa ser demonstrada.
Avaliação da promessa
Substituir nove tributos federais pelo Imposto Único Federal e concluir a transição no mandato
Execução em 4 anos: 🟠 laranja 4/10, há instrumento jurídico, cronograma e salvaguardas descritas, mas falta uma PEC protocolada e um estudo que reconcilie alíquota, base efetiva, exclusões e arrecadação. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.
Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 1, financiamento 0, capacidade administrativa 1, condições técnicas e econômicas 1, cronograma de quatro anos 1, total 4. Nota provisória, confiança baixa. A ausência da conciliação quantitativa não prova impossibilidade, mas impede afirmar neutralidade de arrecadação.
Fontes
- Brasil em Primeiro Lugar, plano de governo de Wilson Grassi, Tribunal Superior Eleitoral, registrado em 2026, páginas 8 a 18.
- Mais de 72 bilhões de transações de pagamento foram registradas no primeiro semestre de 2025, Banco Central do Brasil, 10 de novembro de 2025.
- Quase 70 trilhões de reais em transações de pagamento foram movimentados no segundo semestre de 2025, Banco Central do Brasil, 7 de abril de 2026.
- Estatísticas de Meios de Pagamentos, Banco Central do Brasil, base de dados aberta, consulta em 7 de setembro de 2026.
- Arrecadação de receitas federais alcança R$ 2,886 trilhões em 2025, Receita Federal, 23 de janeiro de 2026.
- Carga tributária bruta do Governo Geral atinge 32,40% do PIB em 2025, Tesouro Nacional, 10 de abril de 2026.
- Entenda o processo legislativo, Câmara dos Deputados, consulta em 7 de setembro de 2026.
- Em plano de governo, presidenciável do Democrata propõe imposto único, Metrópoles, 13 de agosto de 2026.

