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Despesas pessoais de sócio pagas pela empresa na apuração de haveres

Quando o sócio administrador paga despesas particulares com dinheiro da empresa, o patrimônio fica menor e os haveres de quem sai também. Veja como a perícia reconstrói esse valor, passo a passo.

Perícia contábil societária

Despesas pessoais de sócio pagas pela empresa na apuração de haveres

Escola dos filhos, financiamento do carro particular, viagens de férias. Em muitas empresas familiares, gastos pessoais do sócio administrador são pagos pelo caixa da sociedade e lançados como despesa.

Cada real lançado assim reduz o lucro e o patrimônio. Quando um sócio sai, essa redução aparece nos seus haveres. A perícia contábil identifica esses gastos, prova sua natureza e recompõe o patrimônio.

Leitura técnica

Por que a despesa pessoal vira crédito da sociedade

O Código Civil obriga o administrador a devolver à sociedade o que usou em proveito próprio.

O artigo 1.017 do Código Civil determina que o administrador que, sem consentimento escrito dos sócios, aplicar créditos ou bens sociais em proveito próprio terá de restituí-los à sociedade, ou pagar o equivalente. Uma despesa particular paga pela empresa não é, portanto, um gasto da sociedade. É um valor que o sócio deve devolver.

Na contabilidade, o lançamento correto não é uma despesa, mas uma conta a receber do sócio. Quando o gasto é lançado como despesa, o lucro diminui, o patrimônio diminui e o valor da quota de todos os sócios diminui junto, inclusive a de quem nunca se beneficiou do gasto.

No balanço de determinação, a perícia desfaz esse efeito. Retira o valor das despesas e o registra como crédito da sociedade contra o sócio que se beneficiou. O patrimônio volta ao que seria se os gastos tivessem sido lançados corretamente.

Se quem se beneficiou foi o próprio sócio que está saindo, o raciocínio se inverte. O crédito da sociedade contra ele é compensado com seus haveres.

Exemplo numérico

Dois anos de despesas particulares na conta da empresa

O exemplo segue a ordem do laudo. A sociedade, as pessoas e os valores são fictícios.

Ana tem 40% das quotas de uma sociedade limitada e Paulo, o administrador, tem 60%. Ana se retira. O balanço de determinação na data da resolução, com os demais ajustes já feitos, apresenta patrimônio de R$ 1.500.000,00. A sociedade é tributada pelo lucro presumido.

Passo 1, exame das despesas. No razão das despesas administrativas dos 24 meses anteriores à data da resolução, a perícia encontrou pagamentos com documentos em nome de Paulo ou sem relação com a atividade da empresa. Mensalidades da escola dos filhos somaram R$ 96.000,00. Parcelas do financiamento de um veículo registrado no nome de Paulo, que não era usado pela empresa, somaram R$ 84.000,00. Pacotes de viagens de lazer da família somaram R$ 60.000,00.

Passo 2, total a reclassificar. R$ 96.000,00 + R$ 84.000,00 + R$ 60.000,00 = R$ 240.000,00. Não há ata ou documento com o consentimento escrito de Ana para esses pagamentos.

Passo 3, efeito tributário. Como a sociedade é tributada pelo lucro presumido, a base do IRPJ e da CSLL é calculada sobre a receita, e essas despesas não reduziram o imposto pago. A reclassificação não gera tributo adicional.

Passo 4, patrimônio recomposto. O valor sai das despesas e passa a ser um crédito da sociedade contra Paulo. R$ 1.500.000,00 + R$ 240.000,00 = R$ 1.740.000,00.

Passo 5, haveres de Ana. R$ 1.740.000,00 × 40% = R$ 696.000,00.

Conclusão do exemplo. Os haveres de Ana na data da resolução somam R$ 696.000,00. Sem a reclassificação seriam R$ 1.500.000,00 × 40% = R$ 600.000,00. A diferença de R$ 96.000,00 corresponde à parte de Ana nas despesas pessoais pagas pela empresa, R$ 240.000,00 × 40%. O crédito de R$ 240.000,00 contra Paulo permanece na sociedade e pode ser cobrado dele.

Pontos de atenção

O que a perícia precisa provar

Reclassificar uma despesa exige documento. Suspeita não é suficiente.

A natureza pessoal do gasto precisa estar demonstrada, por exemplo, por nota fiscal emitida no CPF do sócio, contrato em nome dele, bem registrado em seu nome ou serviço sem qualquer relação com a atividade da empresa. Despesas com veículo usado nas duas atividades, por exemplo, exigem critério de rateio documentado.

É preciso verificar se houve consentimento. Uma ata que aprova o pagamento de certas despesas como parte da remuneração do administrador muda o tratamento, porque o gasto deixa de ser apropriação indevida e passa a ser remuneração autorizada.

No lucro real a conta é diferente. As despesas pessoais foram deduzidas indevidamente do lucro tributável, e a reclassificação revela um tributo que deixou de ser pago. O laudo calcula esse passivo e o deduz do patrimônio recomposto.

O período examinado precisa ser coerente com o pedido e com a prova disponível. Gastos de muitos anos antes podem já ter sido aprovados em contas de exercícios anteriores, e o laudo indica essa situação quando ela existir.

Base documental

O que reunir para a análise

O razão aponta os lançamentos, e os documentos de suporte provam sua natureza.

Razão analítico das contas de despesas administrativas e gerais

Notas fiscais, contratos e comprovantes de pagamento

Faturas de cartões corporativos e extratos bancários

Atas de aprovação de contas e de remuneração dos administradores

Perguntas frequentes

Dúvidas sobre despesas pessoais nos haveres

As respostas são informativas e dependem do contrato e das decisões do caso.

O sócio que sai pode pedir a revisão das despesas dos anos anteriores?

Pode pedir que a perícia examine os lançamentos. O alcance do exame depende do pedido, das contas já aprovadas e da decisão que fixou o objeto da prova.

A despesa pessoal é somada ao patrimônio ou descontada do outro sócio?

No balanço de determinação ela é somada ao patrimônio como crédito da sociedade contra o sócio beneficiado. O efeito para o sócio que sai é receber sua parte sobre esse crédito.

E se o próprio sócio que sai foi quem fez as despesas?

Nesse caso o crédito da sociedade é contra ele, e o valor é compensado com os seus haveres.

Faz diferença a empresa ser do lucro presumido ou do lucro real?

Faz. No lucro real, a despesa pessoal reduziu indevidamente o imposto, e a reclassificação revela um tributo a pagar que também entra no cálculo.

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