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Carteira de investimentos: exemplo com aportes, resgates e custos

Carteira hipotética: R$ 500.000,00 iniciais, R$ 100.000,00 de aporte, R$ 50.000,00 de resgate e perda de R$ 30.000,00 produzem R$ 520.000,00 finais.

Vinícius Costa, sócio da Costa Nova Associados

Uma carteira pode terminar o trimestre com mais dinheiro e apresentar resultado negativo. A explicação pode estar nos aportes feitos pelo investidor. Para examinar o desempenho, precisamos separar a movimentação de recursos do resultado produzido pelos investimentos e pelos custos.

Construímos a seguir uma carteira hipotética, sem vínculo com cliente, instituição ou operação real. Os saldos e fluxos foram escolhidos para permitir a conferência aritmética. Consideramos uma única moeda, ausência de transferências não identificadas e posições avaliadas de forma consistente nos momentos indicados.

Saldos antes e depois de cada movimentação

Momento em 2026Valor antes do fluxoFluxo externoValor depois do fluxo
Início de janeiroR$ 500.000,00Sem movimentaçãoR$ 500.000,00
Final de janeiroR$ 480.000,00Aporte de R$ 100.000,00R$ 580.000,00
Final de fevereiroR$ 600.000,00Resgate de R$ 50.000,00R$ 550.000,00
Final de marçoR$ 520.000,00Sem movimentaçãoR$ 520.000,00

Os fluxos de janeiro e fevereiro ocorrem imediatamente depois da avaliação que encerra cada subperíodo. O saldo posterior ao fluxo passa a ser a base inicial do período seguinte. Essa convenção é indispensável para reproduzir os percentuais apresentados adiante.

Resultado em reais

A diferença simples entre o valor final e o inicial é positiva em R$ 20.000,00. Entretanto, o investidor acrescentou R$ 100.000,00 e retirou R$ 50.000,00. O aporte líquido foi, portanto, R$ 50.000,00.

Resultado = valor final + resgates menos aportes menos valor inicial. Aplicando os valores, R$ 520.000,00 + R$ 50.000,00 menos R$ 100.000,00 menos R$ 500.000,00 = perda de R$ 30.000,00.

A conferência pelo saldo final produz a mesma resposta: R$ 500.000,00 iniciais, acrescidos de R$ 100.000,00 em aportes, reduzidos em R$ 50.000,00 de resgates e em R$ 30.000,00 de resultado negativo, chegam a R$ 520.000,00. Não há contradição entre o patrimônio final maior e a perda do período.

Carteira hipotética: R$ 500.000,00 iniciais, R$ 100.000,00 de aporte, R$ 50.000,00 de resgate e perda de R$ 30.000,00 produzem R$ 520.000,00 finais.
Demonstração hipotética, valores e premissas apresentados no artigo. Costa Nova Associados.

Como tratar custos já descontados

Admitimos que o extrato detalhado identifique R$ 12.000,00 de custos de corretagem e custódia já descontados dos saldos apresentados, sem outras despesas ou tributos no exercício. O resultado antes desses custos específicos é negativo em R$ 18.000,00. Após os R$ 12.000,00, a perda é de R$ 30.000,00.

Descontar os R$ 12.000,00 novamente da perda de R$ 30.000,00 produziria uma perda artificial de R$ 42.000,00. Por isso, cada rubrica deve indicar se está embutida no saldo ou se ainda precisa ser incluída. A reconstituição em reais, por si só, não informa um retorno percentual bruto de custos, que exigiria considerar também suas datas.

Retorno ponderado pelo tempo

Para separar o efeito dos fluxos externos na medição percentual, calculamos o retorno de cada intervalo e encadeamos seus fatores. O manual dos GIPS Standards do CFA Institute para proprietários de ativos descreve o encadeamento geométrico dos retornos dos subperíodos e o tratamento dos fluxos externos. Utilizamos essa referência metodológica sem afirmar conformidade integral deste exemplo com os padrões GIPS.

SubperíodoCálculo do fatorRetorno exibido
Janeiro480.000 ÷ 500.000 = 0,96Negativo em 4,0000%
Fevereiro600.000 ÷ 580.000 = 1,0344827586…Positivo em 3,4483%
Março520.000 ÷ 550.000 = 0,9454545454…Negativo em 5,4545%

O fator acumulado é (480.000 ÷ 500.000) × (600.000 ÷ 580.000) × (520.000 ÷ 550.000) = 0,938934169279. Subtraindo 1 e multiplicando por 100, encontramos retorno negativo de 6,1066% no trimestre. Preservamos a precisão nos cálculos intermediários e arredondamos somente a apresentação.

Não somamos os três percentuais nem anualizamos esse resultado trimestral. A perda em reais e o retorno ponderado pelo tempo respondem a perguntas diferentes. Dividir R$ 30.000,00 por R$ 500.000,00 produz 6%, mas não reproduz o encadeamento dos intervalos em que houve diferentes montantes investidos.

O que conferir antes de concluir sobre a gestão

Em uma análise documental, os saldos devem ser conciliados com posições de custódia, preços, caixa e operações em liquidação. Aportes, resgates e transferências entre contas precisam ser classificados corretamente. Rendimentos mantidos na carteira integram seu resultado, enquanto entradas de recursos do investidor constituem fluxos externos.

O resultado negativo não demonstra, isoladamente, falha de gestão ou dano indenizável. A investigação deve considerar mandato, limites de risco, decisões documentadas, condições de mercado e eventual comparação adequada. O texto sobre limites da comparação com benchmark desenvolve essa distinção.

A perícia em carteiras administradas reconstrói esses elementos. Quando há laudo em discussão, a assistência técnica contábil pode conferir a memória e demonstrar divergências específicas.

Conclusão

A carteira hipotética encerra o trimestre em R$ 520.000,00, mas registra perda de R$ 30.000,00 depois dos custos considerados. Seu retorno ponderado pelo tempo é negativo em 6,1066%. Separar aportes, resgates, custos e avaliação das posições permite explicar esses resultados sem confundir crescimento do saldo com desempenho.

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