Por Costa Nova Associados
Série A conta da eleição, data de corte: 6 de setembro de 2026.
Augusto Cury passou a receber mais atenção na corrida presidencial depois do avanço registrado por pesquisas eleitorais na última semana. O movimento político explica a atualidade da pauta, mas não serve para medir a qualidade de seu programa. Para isso, a referência é o documento entregue à Justiça Eleitoral.
Na economia, uma das promessas mais fortes do candidato do Avante é criar 10 milhões de novos empreendedores ou microempresas. O programa combina 10 mil Clubes de Empreendedorismo, formação, orientação do Sebrae, crédito progressivo de até R$ 20 mil e um Fundo Nacional do Empreendedor estimado entre R$ 30 bilhões e R$ 50 bilhões. A proposta está no programa oficial, portanto já passou do estágio de declaração de campanha. Ainda não é lei, dotação orçamentária ou política em execução.
O primeiro problema é saber o que será contado
O documento usa expressões diferentes para a mesma ambição política. Em uma passagem, promete 10 milhões de novos empreendedores. Em outra, apresenta o projeto “10 milhões de Microempresas”. Formar uma pessoa, liberar crédito, abrir um CNPJ e manter uma empresa ativa são resultados distintos. Sem um indicador único, a sociedade não consegue verificar se a meta foi cumprida.
O Mapa de Empresas ajuda a mostrar por que essa diferença importa. No primeiro quadrimestre de 2025, o país registrou 1.815.912 empresas abertas e 973.330 fechadas, com saldo positivo de 842.582. Entre as aberturas, 1.377.481 eram MEIs. Esses números são registros administrativos, não comprovam renda, sobrevivência ou geração líquida de trabalho. Assim, uma eventual contagem de inscrições brutas poderia produzir um resultado muito diferente da contagem de negócios ativos depois de determinado período.
O detalhamento tem prazo de dez anos
O título do projeto não informa quando os 10 milhões seriam alcançados. Nas etapas mais detalhadas, porém, o programa prevê formar 5 milhões de brasileiros em dez anos, cerca de 500 mil por ano, e financiar pelo menos 2 milhões de pequenos empreendedores e negócios também em dez anos. Esse prazo precisa ser preservado. Iniciar a rede durante um mandato presidencial não equivale a concluir a meta de uma década.
Há um ponto administrativo favorável. O programa afirma que não pretende construir milhares de prédios e propõe usar escolas públicas fora do horário regular, universidades, institutos federais, centros comunitários e entidades parceiras. Isso reduz a necessidade de obras. Ainda assim, uma rede nacional exige currículos, seleção de parceiros, controle de frequência, avaliação dos cursos, sistemas de informação e coordenação com estados e municípios.
O fundo tem ordem de grandeza, mas não memória financeira
O crédito proposto começa em até R$ 2 mil e pode avançar até R$ 20 mil conforme o uso produtivo e o histórico de pagamento. Se os 2 milhões de beneficiários recebessem o limite máximo, a carteira alcançaria R$ 40 bilhões. É um teto aritmético, calculado por 2 milhões multiplicados por R$ 20 mil, não uma previsão de desembolso.
O valor cabe dentro da faixa de R$ 30 bilhões a R$ 50 bilhões indicada para o fundo, mas essa coincidência não fecha a conta fiscal. Como o crédito seria progressivo e parte do fundo poderia funcionar como garantia ou capital rotativo, o desembolso inicial pode ser menor. Por outro lado, ainda precisam ser estimados inadimplência, subsídio necessário para oferecer juros de 5% a 6% ao ano, custos operacionais, perdas cobertas pelo governo e velocidade de retorno dos pagamentos.
O programa aponta parte dos lucros das empresas em que a União possui participação como fonte de recursos. Falta indicar quais dividendos seriam vinculados, quanto essa receita produziria por ano e como o direcionamento conviveria com o Orçamento. A criação de uma nova estrutura ministerial, do fundo e de despesas permanentes também dependeria de atos do Executivo e, conforme o desenho, de aprovação do Congresso e dotações anuais.
O que a promessa permite concluir
A proposta apresenta mais elementos do que um slogan. Há público, escada de crédito, faixa para o fundo, uso de estruturas existentes e metas de formação e financiamento. O limite está na ligação entre essas peças. O documento não demonstra que os cursos produzirão novos negócios ativos, não define a métrica dos 10 milhões e não apresenta o fluxo financeiro anual.
Em quatro anos, seria juridicamente e administrativamente possível criar programas, firmar parcerias e iniciar operações. A execução integral, porém, não está sustentada pelo próprio cronograma, que distribui as metas detalhadas por dez anos.
Avaliação das promessas
10 milhões de novos empreendedores ou microempresas
Execução em 4 anos: 🟠 laranja 3/10, a meta não define quem será contado, não consolida o custo e não possui cronograma compatível com conclusão integral no mandato. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.
Fundo de R$ 30 bilhões a R$ 50 bilhões e crédito a 2 milhões de negócios
Execução em 4 anos: 🟠 laranja 4/10, há desenho inicial e canais institucionais possíveis, mas a meta de beneficiários tem prazo de dez anos e o custeio não foi demonstrado. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.
Nota metodológica: pontuação de zero a dois em cinco critérios. Meta de 10 milhões: viabilidade jurídica e legislativa 1, financiamento 0, capacidade administrativa 1, condições técnicas e econômicas 1, cronograma 0, total 3. Fundo e crédito: viabilidade jurídica e legislativa 1, financiamento 1, capacidade administrativa 1, condições técnicas e econômicas 1, cronograma 0, total 4. Notas provisórias, confiança média.
Fontes
- Programa de governo de Augusto Cury, Tribunal Superior Eleitoral, agosto de 2026, páginas 39 e 95 a 108.
- Como Cury, “gestor da emoção”, supera ex governadores na busca ao Planalto, UOL, 6 de setembro de 2026.
- Mapa de Empresas, Boletim do primeiro quadrimestre de 2025, Governo Federal, 26 de maio de 2025, páginas 3, 5, 10 e 11.
- Constituição da República Federativa do Brasil, Presidência da República, texto vigente consultado em 6 de setembro de 2026, artigos 61 e 165.

