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A dívida por trás da IA: como o crédito à tecnologia pode alcançar o Brasil

Do mundo ao Brasil. A dívida por trás da inteligência artificial. No exterior, maior financiamento por crédito. No Brasil, possíveis efeitos em carteiras, novas captações e contratos de serviços.

Por Costa Nova Associados

Do mundo ao Brasil. Apuração encerrada em 14 de setembro de 2026, às 18h35 de Brasília.

A expansão da inteligência artificial tem uma conta que vai além da compra de chips. Empresas tomam crédito, fundos antecipam receitas futuras e investidores passam a depender do mesmo conjunto de expectativas. O estudo publicado nesta segunda, 14 de setembro, pelo Banco de Compensações Internacionais, BIS, ajuda a dimensionar essa mudança: na amostra de crédito direto dos Estados Unidos, os empréstimos a empresas de tecnologia superavam US$ 1 trilhão em 2025, com participação de 44%, ante 22% em 2010. Os valores são nominais, em dólares. Fonte: BIS, Financing the digital economy: the role of private credit, 14/09/2026, introdução.

Esse recorte abrange software e tecnologia. Não representa exclusivamente inteligência artificial, nem toda a dívida das grandes empresas do setor. Confundir essas bases faria parecer que o estudo mediu algo que não mediu. A participação maior também não é uma taxa de inadimplência: descreve onde o crédito está concentrado.

O financiamento pode viabilizar empresas com poucos bens físicos para oferecer em garantia. No modelo examinado pelo BIS, receitas recorrentes e ativos intangíveis têm peso na concessão. Isso permite financiar inovação, mas torna decisiva a qualidade da projeção de caixa. Um contrato pode parecer confortável quando se espera crescimento rápido e ficar apertado se clientes, receitas ou margens vierem abaixo do previsto.

A revisão de setembro do BIS registra mercados ainda resistentes, apesar de dúvidas sobre avaliações e investimento excessivo em tecnologia. O diagnóstico considera também tensões geopolíticas, energia, inflação e dificuldades fiscais. Assim, uma mudança no custo do dinheiro não pode ser atribuída automaticamente à IA, muito menos a um único relatório. Fonte: BIS Quarterly Review, September 2026, 14/09/2026, visão geral.

Para o Brasil, o primeiro canal é a exposição efetiva das carteiras. Um fundo que detenha participação ou crédito de empresas estrangeiras pode sofrer com uma revisão do valor desses ativos. A intensidade depende do peso da posição, de eventual proteção cambial, das garantias e da liquidez. A ausência de negociação diária tampouco permite concluir que o risco desapareceu. Um valor pouco alterado no extrato pode refletir a periodicidade da avaliação.

O segundo canal aparece na contratação ou renovação do financiamento. Se credores internacionais exigirem remuneração maior para emprestar, uma empresa brasileira que busque recursos nesse mercado pode enfrentar uma proposta mais cara. A exposição é maior quando o vencimento está próximo, o acesso a alternativas é limitado e o fluxo de caixa já está comprometido. Dívida já contratada a taxa fixa não muda apenas porque o mercado passou a exigir mais dos novos tomadores.

Uma simulação permite enxergar a ordem de grandeza sem inventar uma cotação. Considere uma nova captação de US$ 10 milhões e um aumento hipotético de 1 ponto percentual ao ano no prêmio cobrado pelo credor. Com saldo constante durante um ano, os juros adicionais seriam US$ 10.000.000 × 0,01 = US$ 100.000. O cálculo não inclui tarifas, amortização nem proteção cambial e não descreve uma operação observada. Se houver receita em reais e obrigação em dólares, o câmbio ainda altera o valor necessário para pagar a dívida.

Há amortecedores. No Relatório de Estabilidade Financeira de maio de 2026, o Banco Central apontava reduzida exposição cambial e pequena dependência de recursos externos no sistema financeiro nacional. O mesmo documento registrava que a composição das linhas de exportação ajudara a preservar o custo médio no primeiro trimestre, apesar de pressões em algumas modalidades. É uma avaliação anterior a setembro, não uma garantia de que todos os bancos, fundos ou empresas estejam protegidos. Fonte: BC, REF, maio de 2026, páginas 9 e 22.

O consumidor tende a encontrar uma transmissão mais lenta e desigual. Empresas que compram capacidade de processamento, software e equipamentos no exterior podem rever preços quando renovam contratos ou substituem insumos. Mas maior custo financeiro não determina, sozinho, um reajuste. Concorrência, contratos vigentes, estoques, câmbio e ganho de produtividade podem absorver, adiar ou até inverter esse efeito. Também é possível que uma redução do investimento global alivie a demanda por determinados equipamentos.

O cuidado necessário é acompanhar o caminho completo entre financiamento e preço. O BC já destacava, em maio, concentração, dificuldade de avaliação e baixa transparência no crédito ligado a software e centros de dados. Isso sustenta a atenção ao mecanismo, sem demonstrar que o alerta desta segunda causou uma perda específica no Brasil. Fonte: BC, REF, maio de 2026, páginas 14 e 15 e boxe 5, páginas 75 e 76.

Nesta edição, não se atribui variação de dólar, bolsa ou juros brasileiros ao relatório, nem se apresenta cotação como fechamento. O fato documentado é a mudança na composição do crédito nos Estados Unidos. Os efeitos brasileiros descritos são canais de transmissão condicionados às posições e aos contratos. Para transformar esse risco em valor apurado, ainda é preciso identificar credor, devedor, saldo, prazo e exposição.

Referências: BIS, Financing the digital economy: the role of private credit, 14/09/2026, introdução e seção Private credit and its lending model; BIS, BIS Quarterly Review, September 2026, 14/09/2026, visão geral; Banco Central do Brasil, Relatório de Estabilidade Financeira, maio de 2026, páginas 9, 14, 15, 22, 75 e 76. Consulta em 14/09/2026.

Método: comparação das participações informadas pelo BIS no mesmo recorte de crédito direto dos Estados Unidos, entre 2010 e 2025. A simulação usa saldo nominal constante em dólares e juros anuais adicionais iguais ao principal multiplicado pela variação hipotética do prêmio. Não estima repasse ao consumidor, perda de carteira ou probabilidade de crise.

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