A CONTA DA ELEIÇÃO
Por Costa Nova Associados
Ronaldo Caiado incluiu no programa presidencial uma ambição que permite medir a distância entre a formulação política e a escala econômica: fazer o investimento total do Brasil avançar dos atuais cerca de 17% para aproximadamente 25% do Produto Interno Bruto. O número é concreto, mas o prazo não é. O documento afirma que não busca um salto estatístico dentro de um mandato e propõe uma Estratégia Brasil 2040.
O fato documentado
No tema dedicado ao crescimento, o programa oficial registrado no Tribunal Superior Eleitoral, página 14, atribui ao setor privado o papel principal. Ao Estado caberia coordenar prioridades, reduzir o custo do capital, organizar projetos, ampliar concessões e parcerias, proteger o investimento no orçamento e aplicar recursos públicos onde o retorno social supera o retorno apropriado pelo investidor privado.
O mesmo trecho preserva o horizonte de longo prazo. A proposta para 2027 a 2030 é instituir a Estratégia Brasil 2040, com metas de produtividade e investimento e revisão a cada quatro anos. Portanto, 25% do PIB não deve ser lido como resultado formalmente prometido para dezembro de 2030. O compromisso verificável no primeiro mandato é iniciar uma trajetória, mas o programa não informa qual taxa deveria ser alcançada ao final dessa etapa.
A linha de base caiu para 16,1%
O dado mais recente do IBGE torna a distância um pouco maior que a referência arredondada do programa. No segundo trimestre de 2026, a taxa de investimento ficou em 16,1% do PIB, ante 16,5% no primeiro trimestre. A formação bruta de capital fixo cresceu 1,2% na comparação com o trimestre anterior, com ajuste sazonal, mas recuou 0,2% no acumulado de quatro trimestres. O PIB nominal do período foi de R$ 3,4 trilhões, conforme o release PIB cresce 0,5% no segundo trimestre de 2026, divulgado pelo IBGE em 1º de setembro de 2026.
Taxa de investimento não é sinônimo de gasto federal. Ela relaciona a formação bruta de capital fixo ao PIB e inclui máquinas, construção, software, moradia e outros ativos fixos adquiridos por empresas, famílias e governos. Uma parte maior pode vir do setor privado, do setor público ou de ambos.
Cálculo próprio da ordem de grandeza
A diferença entre 16,1% e 25,0% corresponde a 8,9 pontos percentuais do PIB. Aplicada apenas ao valor nominal do segundo trimestre, a conta é 8,9% multiplicado por R$ 3,4 trilhões, que resulta em R$ 302,6 bilhões adicionais de investimento naquele trimestre. Na mesma base estática, a formação de capital passaria de aproximadamente R$ 547,4 bilhões para R$ 850 bilhões.
Essa é uma simulação de escala. Não é custo fiscal, projeção para 2030 nem estimativa apresentada pela campanha. O PIB mudará, os preços relativos mudarão e parte do investimento adicional substituirá ativos depreciados. Ainda assim, a conta mostra que a meta exige mais do que uma carteira isolada de obras.
Como a transmissão poderia ocorrer
O caminho descrito pelo programa começa na estabilização fiscal e na redução do custo do capital. Em seguida viriam garantias, mercado de capitais, bancos públicos com foco em adicionalidade, concessões, projetos executivos, licenciamento e segurança jurídica. Se essas etapas funcionarem, empresas encontram retorno para ampliar capacidade, governos conseguem executar infraestrutura e a produtividade pode crescer.
Há fatores que podem interromper essa sequência. Juros reais elevados reduzem projetos rentáveis. Incerteza regulatória e obras sem estudo atrasam a execução. Aumentar investimento público sem poupança, receita ou realocação pode pressionar a dívida e o custo do financiamento. Por outro lado, concessões bem estruturadas e capital estrangeiro podem elevar a taxa sem transformar toda a diferença em despesa primária.
O que falta para conferir a promessa
O programa apresenta mecanismos plausíveis, mas não informa meta intermediária para 2030, volume esperado do investimento público, fontes de financiamento, carteira priorizada, ritmo anual nem divisão do esforço entre setor público e privado. A ausência desses elementos não prova impossibilidade. Ela impede, neste momento, verificar se a trajetória cabe no primeiro mandato e se os instrumentos propostos são proporcionais ao salto pretendido.
Data de corte: 24 de setembro de 2026. Valores nominais em reais. A taxa de 16,1% e o PIB de R$ 3,4 trilhões referem-se ao segundo trimestre de 2026.
Nota de execução
Execução em 4 anos: 🟡 amarelo 5/10, há instrumentos jurídicos e econômicos plausíveis para iniciar a trajetória, mas faltam financiamento, meta para 2030 e ritmo anual. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.
Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 2, financiamento 0, capacidade administrativa 1, condições técnicas e econômicas 1, cronograma de quatro anos 1. Total 5/10. Nota provisória, confiança baixa. A avaliação considera a fase de implementação entre 2027 e 2030 e preserva o horizonte original até 2040.
Fontes
- Propostas de governo das candidaturas à Presidência da República, Eleições 2026, Tribunal Superior Eleitoral, arquivo oficial consultado em 24 de setembro de 2026, programa de Ronaldo Caiado, tema 5, página 14.
- PIB cresce 0,5% no segundo trimestre de 2026, IBGE, 1º de setembro de 2026.
- Cálculo próprio: 25,0% menos 16,1%, multiplicado por R$ 3,4 trilhões.

