A conta da eleição
Por Costa Nova Associados
Leonardo Avalanche registrou no Tribunal Superior Eleitoral a promessa de “zerar a fila do SUS”. O verbo é absoluto, mas o documento não informa qual conjunto de filas seria zerado, quantas pessoas formam a linha de base, quais procedimentos entrariam na meta, quanto custaria nem em que data o resultado deveria ser alcançado.
O texto aparece nas páginas 9 e 10 da proposta de governo do PRTB, publicada pelo TSE em 2026. Os instrumentos citados são mutirões nacionais, contratação de hospitais privados com capacidade ociosa, telemedicina, gestão por resultados, inteligência artificial para estoques de medicamentos e ampliação de especialidades. Nesta data de corte, 26 de setembro de 2026, isso é um programa eleitoral. Não é proposição legislativa protocolada, norma vigente, dotação específica nem execução comprovada.
A primeira dificuldade é saber o que significa fila
O SUS não possui uma fila nacional única e integralmente observada para consultas, exames e cirurgias. A auditoria operacional do Tribunal de Contas da União sobre o programa Agora Tem Especialistas encontrou uma base ainda incompleta. Em 2024, a Rede Nacional de Dados em Saúde cobria 10,4% da produção de cirurgias eletivas do programa federal analisado. Em 2025, a base reunia 311 dos 1.269 tipos de procedimentos cirúrgicos, cobertura de 24,5%.
Esses números estão no relatório de auditoria do TCU, divulgado em 24 de junho de 2026, especialmente na página 9. O próprio tribunal registra que a seleção de estabelecimentos impede generalizar os resultados para todo o país. Antes de prometer zero, portanto, seria necessário definir uma linha de base nacional comparável, por procedimento, região e tempo de espera.
Os instrumentos já existem, a entrega integral não
Mutirões, telessaúde, unidades móveis, contratação complementar e ampliação de cirurgias não começam do zero. O Agora Tem Especialistas, do Ministério da Saúde, já reúne esses mecanismos. A existência do desenho administrativo mostra que parte do caminho é juridicamente e tecnicamente possível. Não prova, porém, que a meta absoluta seja executável em quatro anos.
Na mesma auditoria, o TCU informou que apenas 6,9% da entrega ambulatorial planejada para 2025 havia sido implementada. O tribunal também identificou queda da espera mediana em 18 de 29 procedimentos de alto volume entre 2023 e 2025, ao mesmo tempo em que a dispersão aumentou. Houve melhora em parte do recorte, mas continuaram existindo esperas longas e cobertura insuficiente para uma conclusão nacional.
A distinção é importante. Um programa pode aumentar produção e reduzir medianas sem levar cada fila a zero. Novos pacientes entram continuamente, a oferta varia entre regiões, alguns procedimentos dependem de profissionais escassos e a rede municipal e estadual administra boa parte do acesso. A promessa precisa dizer se “zero” significa ausência de pessoas aguardando ou atendimento dentro de um prazo clínico máximo.
O orçamento total não é a fonte de custeio
O programa eleitoral cita o orçamento do Ministério da Saúde como prova de que o dinheiro já existe. O Orçamento de 2026 sancionado em 15 de janeiro reservou R$ 271,3 bilhões para a pasta. Esse valor financia o conjunto das funções do ministério e não constitui caixa livre para uma nova meta.
Para transformar a promessa em conta verificável, seria preciso apresentar ao menos quantidade adicional de consultas, exames e cirurgias, custo unitário, capacidade pública e privada disponível, duração dos contratos e economia comprovada em outras rubricas. O programa menciona desperdício de medicamentos entre 10% e 20%, mas não identifica fonte primária que permita usar essa faixa como financiamento. Por isso, ela não entra nesta estimativa.
O que falta para a promessa ficar mensurável
- linha de base nacional por procedimento e território;
- definição objetiva de fila zerada;
- metas anuais e cronograma de quatro anos;
- orçamento dedicado e memória de cálculo;
- responsabilidades da União, dos estados, dos municípios e da rede contratada.
Metodologia: viabilidade jurídica e legislativa 1, financiamento 0, capacidade administrativa 1, condições técnicas e econômicas 1, cronograma 0. Nota provisória, confiança baixa. A ausência de detalhes não prova impossibilidade, mas impede sustentar a implementação integral com as informações disponíveis.
Execução em 4 anos: 🟠 laranja 3/10, os instrumentos existem, mas faltam linha de base nacional, orçamento dedicado, metas por procedimento e cronograma para chegar a zero. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.
Fontes
- Proposta de Governo PRTB, Tribunal Superior Eleitoral, 2026, páginas 9 e 10.
- TCU avalia programa Agora Tem Especialistas do Ministério da Saúde, Tribunal de Contas da União, 24 de junho de 2026.
- Relatório de auditoria operacional, Tribunal de Contas da União, 24 de junho de 2026, páginas 9 e 10 e conclusões.
- Agora Tem Especialistas, Ministério da Saúde, acesso em 26 de setembro de 2026.
- Lei nº 15.233, Presidência da República, 7 de outubro de 2025.
- Presidente sanciona Orçamento de 2026, Ministério do Planejamento e Orçamento, 15 de janeiro de 2026.

