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Hertz quer expropriar empresas estratégicas, mas a conta começa em US$ 66,99 bilhões

Capa do carrossel A conta da eleição sobre a proposta de Hertz Dias para expropriar empresas estratégicas, com referência de US$ 66,99 bilhões para a Vale.

A conta da eleição

Por Costa Nova Associados

Hertz Dias propõe expropriar empresas estratégicas de mineração, petróleo e energia para concentrar recursos em investimentos produtivos e serviços públicos. O programa eleitoral protocolado no TSE cita Petrobras e Vale, além de mencionar siderurgia, derivados de petróleo, grandes bancos e o topo do agronegócio, com referência à JBS. É uma promessa de mudança patrimonial ampla, não apenas uma alteração de gestão.

O primeiro cuidado é separar controle, propriedade e fluxo de dividendos. Essas três medidas não são equivalentes. Uma empresa pode estar sob controle estatal sem que todo o seu capital pertença ao governo. Também pode distribuir dividendos elevados em determinado período sem repetir esse resultado no futuro.

Petrobras já está sob controle federal

A composição acionária divulgada pela Petrobras para agosto de 2026 mostra que o Governo Federal possui 50,26% das ações ordinárias, que concentram o direito de voto. Considerando Governo Federal, BNDES e BNDESPar, o grupo de controle reúne 35,45% do capital total. Portanto, a União já controla a companhia, embora investidores privados possuam 64,55% do capital total em circulação.

Esse dado abre uma pergunta que o programa não responde. “Expropriar a Petrobras” significa apenas preservar o controle atual ou comprar o capital hoje pertencente a investidores brasileiros e estrangeiros? As duas hipóteses têm custos muito diferentes. Sem indicar o percentual pretendido, não existe uma estimativa verificável.

A Vale oferece uma referência de escala

A Vale informou valor de mercado de US$ 66,987 bilhões em 31 de agosto de 2026, com 4,439 bilhões de ações no capital total. A União detém doze golden shares, que asseguram vetos específicos sobre temas como mudança do objeto social, liquidação e alienação de partes relevantes dos sistemas de mineração. Essas ações especiais não equivalem ao controle econômico da empresa.

Os US$ 66,987 bilhões são uma referência de escala, não um custo oficial de estatização. Uma aquisição de controle pode envolver prêmio sobre a cotação, avaliação de passivos, direitos de acionistas minoritários, litígios e reação do próprio mercado. Se o caminho escolhido for desapropriação, o custo também depende do critério de indenização e da arquitetura jurídica adotada.

Dividendos não são financiamento automático

O programa afirma que Petrobras e Vale distribuíram, respectivamente, médias anuais de R$ 100 bilhões e R$ 30 bilhões em dividendos nos últimos quatro anos. Ainda que se aceite essa referência como descrição do período citado, ela não resolve a conta da aquisição.

Dividendos são fluxos condicionados ao lucro, aos investimentos, ao endividamento e à política de remuneração dos acionistas. O valor da empresa é um estoque patrimonial. Usar dividendos futuros para justificar a compra do capital atual exige definir preço, prazo, financiamento e quanto do lucro continuará disponível depois de novos investimentos públicos. O programa não apresenta esse encadeamento.

A Constituição muda o desenho da promessa

O artigo 5º, inciso XXIV, da Constituição estabelece que a desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, depende de justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvadas as exceções constitucionais. O artigo 173 permite a exploração direta de atividade econômica pelo Estado quando necessária à segurança nacional ou a relevante interesse coletivo definido em lei.

Isso não prova que toda estatização seja impossível. Mostra, porém, que a implementação integral exige delimitar empresas, justificar o interesse coletivo, aprovar leis, definir indenizações e organizar a transição societária e administrativa. O programa não informa se pretende compra negociada, desapropriação indenizada ou ruptura com a disciplina constitucional vigente.

O que existe e o que ainda falta

O fato documentado é uma promessa inserida no programa eleitoral. Não há proposição legislativa federal protocolada pelo candidato para executá-la, norma vigente que determine essas aquisições, avaliação oficial do patrimônio a ser incorporado nem execução comprovada.

Para transformar a promessa em plano mensurável, seriam necessários ao menos uma lista fechada de empresas, o percentual de capital pretendido, a modalidade jurídica, o custo ou método de avaliação, a fonte de financiamento, a governança posterior e um cronograma compatível com quatro anos.

Fontes

Nota metodológica compacta: viabilidade jurídica e legislativa 0, financiamento 0, capacidade administrativa 1, condições técnicas e econômicas 1, cronograma de quatro anos 0. Soma: 2/10. Nota provisória, confiança média.

Execução em 4 anos: 🔴 vermelho 2/10, a proposta identifica setores, mas não delimita empresas, indenização, financiamento ou transição, e a escala patrimonial da Vale evidencia o obstáculo financeiro. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.

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