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Imposto único de 3,5%: a base necessária chega a R$ 82,9 trilhões

Capa preta da série A conta da eleição com a pergunta 3,5% sobre o quê? e referência à proposta de Leonardo Avalanche.

Por Costa Nova Associados

Série A conta da eleição

Leonardo Avalanche registrou no programa presidencial uma alíquota precisa para uma mudança muito maior do que o número sugere. A proposta é substituir tributos federais, estaduais e municipais por um imposto único de 3,5%. O mesmo texto afirma que a simplificação eliminaria a sonegação e faria a arrecadação nacional triplicar.

A alíquota está documentada. A base sobre a qual ela seria cobrada, porém, não aparece. Essa ausência impede verificar se a receita atual seria preservada, quanto cada setor pagaria e quem suportaria o imposto ao longo das cadeias produtivas.

O que existe no papel

No arquivo oficial de propostas do TSE, o documento 2026BR280002554479_01.pdf lista ICMS, ISS, IPI, PIS, Cofins, IOF, IRPJ, CSLL, IRPF, INSS, IPVA, ITBI, ITCMD e Imposto de Importação entre os tributos que seriam substituídos. A formulação está nas páginas impressas 1 e 2 da proposta 01.

Trata-se de programa eleitoral. Não há PEC ou projeto citado no próprio texto, nem norma vigente ou execução comprovada. A distinção importa porque parte dos tributos pertence a estados e municípios. O presidente não pode extingui-los sozinho.

A base necessária para 3,5%

O programa usa aproximadamente R$ 2,9 trilhões como arrecadação federal de 2025. O valor coincide com o resultado anual divulgado pela Receita Federal em 22 de janeiro de 2026, também registrado na série oficial de arrecadação e reportado pela Folha de S.Paulo na mesma data.

Se uma alíquota de 3,5% tivesse de repor apenas esses R$ 2,9 trilhões, a base anual precisaria alcançar R$ 82,86 trilhões. O cálculo é R$ 2,9 trilhões divididos por 0,035. Essa conta ainda deixa de fora as receitas estaduais e municipais que a proposta também promete substituir.

Para cumprir a afirmação adicional de triplicar somente a arrecadação federal usada pelo programa, o resultado subiria para R$ 8,7 trilhões. À mesma alíquota, a base teria de chegar a R$ 248,57 trilhões por ano.

Esses valores não provam que o desenho seja impossível. Eles mostram que a incidência teria de alcançar fluxos muito maiores do que a renda produzida uma única vez. Isso pode ocorrer quando o mesmo valor é tributado em várias transferências, mas a cumulatividade altera preços relativos, margens e cadeias de pagamento. Sem dizer se 3,5% incidiria sobre faturamento, pagamentos, renda, patrimônio, valor agregado ou outra grandeza, a promessa de triplicar a receita não pode ser testada.

O carro de R$ 100 mil

O programa apresenta uma simulação própria. Parte de um carro de R$ 100 mil no qual R$ 50 mil seriam tributos embutidos. Ao retirar essa parcela e aplicar 3,5% sobre os R$ 50 mil restantes, chega a R$ 51.750. A aritmética está correta dentro da premissa declarada.

O cálculo, contudo, não demonstra que esse seria o preço observado. Ele supõe que metade do preço atual corresponde aos tributos eliminados, que não surgiriam custos de transição, que a nova cobrança incidira apenas uma vez e que toda a economia seria repassada ao consumidor. Margens, concorrência, custos financeiros e insumos continuariam influenciando o preço final.

Uma transição dentro de outra transição

A Emenda Constitucional nº 132, de 20 de dezembro de 2023, já iniciou a reorganização dos tributos sobre o consumo e criou regras de transição e partilha. Substituir ICMS, ISS, IPVA, ITBI e ITCMD por uma cobrança nacional exigiria nova alteração constitucional, acordo federativo, mecanismo de repartição e tratamento dos créditos e contratos durante a mudança.

O programa identifica um objetivo simples para o eleitor, mas não entrega o desenho que permitiria calcular arrecadação, distribuição entre entes, carga por setor e preço final. A lacuna não é detalhe técnico. É o centro da conta.

Veja o carrossel completo em PDF.

Fontes e método

Execução em 4 anos: 🔴 vermelho 2/10, a proposta identifica a alíquota, mas não define base, partilha federativa, transição, cumulatividade nem como 3,5% preservaria e triplicaria a receita. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.

Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 0/2, financiamento 0/2, capacidade administrativa 1/2, condições técnicas e econômicas 0/2, cronograma de quatro anos 1/2. Nota provisória, confiança baixa. A avaliação mede a implementação integral caso o candidato vença, não a chance eleitoral, a preferência ideológica ou o mérito da política.

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