
A conta da eleição
Por Costa Nova Associados
Wilson Grassi registrou no Tribunal Superior Eleitoral uma proposta que tenta transformar um comprovante conhecido por milhões de famílias em porta de entrada para o crédito habitacional. Quem paga aluguel e demonstra regularidade teria acesso automático a financiamento, com prestação inicial equivalente ao aluguel comprovado, respeitados limites de renda e de valor do imóvel.
O desenho merece atenção porque ataca uma fricção real, a distância entre pagar aluguel todos os meses e ser aprovado por um banco para comprar um imóvel. Mas o salto entre as duas situações não é apenas documental. Ele envolve risco de crédito, entrada, seguro, custo financeiro, subsídio, garantia e capacidade do fundo que fornece os recursos.
O que existe no papel
O programa oficial de Wilson Grassi no TSE, nas páginas 41 e 43 do PDF, prevê validação do histórico por extratos bancários e por um cadastro público voluntário de locações. O beneficiário poderia escolher imóvel novo ou usado, em qualquer município, dentro dos limites definidos.
O mesmo documento indica possíveis fontes, FGTS, recursos direcionados do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo, subsídio previsto no orçamento e garantia pública parcial para famílias sem entrada. Também relaciona os instrumentos necessários, mudanças nas leis do Sistema Financeiro da Habitação e do FGTS, regulamentação do cadastro de locações, autorização orçamentária e ato do conselho curador do fundo.
Há ainda um cronograma. O cadastro e as regras seriam preparados no primeiro ano, e o primeiro lote de financiamentos, no segundo. Isso torna a proposta mais detalhada do que um anúncio genérico. Ainda assim, ela continua sendo programa eleitoral. Não é proposição protocolada, norma vigente ou execução comprovada.
O tamanho do problema
A Fundação João Pinheiro informou em 24 de abril de 2024 que o déficit habitacional brasileiro de 2022 estava perto de 6 milhões de domicílios. O ônus excessivo com aluguel urbano respondia por 3.242.780 domicílios, ou 52,2% do total. Esse componente reúne famílias de baixa renda que comprometem parcela elevada do rendimento com aluguel.
O dado mostra por que o histórico de aluguel é politicamente atraente. Ele não prova, porém, que 3,2 milhões de famílias poderiam assumir financiamento. Déficit habitacional mede necessidade de moradia. Crédito aprovado depende de renda disponível, estabilidade de pagamento, valor do imóvel e custo total da operação.
Quanto R$ 1.500 sustentariam
Fizemos uma simulação ilustrativa para medir a ordem de grandeza. A fórmula usada foi a do valor presente de uma anuidade no sistema Price, com parcela de R$ 1.500, prazo de 420 meses e taxa nominal anual dividida por doze. A página de financiamentos do FGTS, consultada em 3 de outubro de 2026, informa taxas nominais de 4,20% a 6,00% ao ano, conforme renda e modalidade. A Caixa informa prazo de até 35 anos.
| Taxa nominal anual | Principal financiável na simulação |
|---|---|
| 4,20% | R$ 329,8 mil |
| 6,00% | R$ 263,1 mil |
Esses valores não são crédito aprovado nem preço efetivo de imóvel. A conta exclui entrada, Taxa Referencial, seguros, tarifas e Custo Efetivo Total. Ao incluir esses itens, parte dos R$ 1.500 deixa de amortizar o principal. A simulação serve para mostrar que a mesma prestação pode financiar valores bem diferentes conforme a taxa e o prazo.
A fonte existe, a escala ainda não
O financiamento habitacional subsidiado já existe. A linha financiada do Minha Casa, Minha Vida, página atualizada em 28 de junho de 2026, atende famílias com renda mensal de até R$ 13 mil e oferece juros abaixo do mercado. Em 10 de setembro de 2026, o Conselho Curador do FGTS elevou de R$ 12,5 bilhões para R$ 13 bilhões o subsídio destinado às faixas 1 e 2 em 2026.
O programa de Grassi reconhece que não é possível fixar número de unidades ou valor do subsídio sem conhecer o caixa futuro do FGTS e o quadro fiscal. A prudência evita uma cifra inventada, mas também impede calcular cobertura, custo fiscal e risco da garantia pública. Falta definir quem absorveria a inadimplência, qual renda teria prioridade, como seria feita a avaliação do imóvel e quando o acesso deixaria de ser automático.
A proposta, portanto, combina um diagnóstico forte com uma conta incompleta. O histórico de aluguel pode ampliar informação sobre o pagador e reduzir barreiras burocráticas. Não substitui sozinho a análise de capacidade financeira nem cria os recursos necessários para subsídio, entrada e garantia.
Fontes
- Proposta Democrata, Wilson Grassi, Tribunal Superior Eleitoral, Eleições 2026, páginas 41 e 43, consulta em 3 de outubro de 2026.
- Brasil registra déficit habitacional de 6 milhões de domicílios, Fundação João Pinheiro, 24 de abril de 2024, dado de 2022.
- Financiamentos, FGTS, consulta em 3 de outubro de 2026.
- Financiamento de imóveis, Caixa Econômica Federal, consulta em 3 de outubro de 2026.
- Minha Casa, Minha Vida, linha financiada, Ministério das Cidades, atualizado em 28 de junho de 2026.
- Conselho suplementa R$ 500 milhões no orçamento do FGTS para subsídio habitacional, Ministério do Trabalho e Emprego, 10 de setembro de 2026.
Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 1 + financiamento 1 + capacidade administrativa 1 + condições técnicas e econômicas 1 + cronograma de quatro anos 2 = 6/10. Nota provisória, confiança média.
Execução em 4 anos: 🟡 amarelo 6/10, o programa identifica instrumentos, fontes e prazos, mas não quantifica o subsídio, a garantia pública, o público atendido nem os critérios de risco que sustentariam o acesso automático ao crédito. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.

