A conta da eleição
Por Costa Nova Associados
Rui Costa Pimenta registrou no Tribunal Superior Eleitoral uma promessa de efeito imediato e fácil de entender: reduzir o preço dos combustíveis em 50% e encerrar a paridade com o dólar. O número é forte. A explicação de como chegar a ele, porém, não aparece no programa de sete páginas.
O que existe no papel
O documento oficial do PCO, apresentado ao TSE em agosto de 2026, se define como um programa de luta. Na página 3, dentro do eixo sobre privatizações e economia nacional, propõe a nacionalização do petróleo, uma Petrobras integralmente estatal e, em seguida, a redução imediata de 50% no preço dos combustíveis. Também pede o fim da política de paridade com o dólar.
O status precisa ser delimitado. Trata se de programa eleitoral registrado, não de projeto protocolado, lei aprovada, norma vigente ou execução comprovada. O texto não informa qual combustível seria alcançado, qual preço serviria de base, em que ponto da cadeia ocorreria o corte, quem absorveria a diferença nem quais atos seriam adotados no primeiro dia.
A conta na bomba
A ANP disponibilizou em 2 de outubro a pesquisa da semana de 27 de setembro a 3 de outubro de 2026. A média nacional da gasolina comum ficou em R$ 6,55 por litro. Aplicar literalmente a promessa produz a seguinte conta: R$ 6,55 multiplicados por 50% resultam em R$ 3,275. Arredondado para centavos, o preço seria R$ 3,28 por litro.
Em uma simulação simples, um abastecimento de 50 litros cairia de R$ 327,50 para R$ 163,75. A economia mecânica seria de R$ 163,75 por tanque. Se o mesmo volume fosse comprado uma vez por mês durante doze meses, a diferença acumulada seria de R$ 1.965.
Esses valores não são previsão de preço. São cálculos próprios, nominais, que assumem repasse integral, consumo constante e manutenção da média nacional. Eles servem para dimensionar a promessa, não para afirmar que todos os postos cobrariam o mesmo valor.
Mudar a referência não corta toda a cadeia
A formação do preço final não termina na refinaria. Segundo a ANP, entram na conta o preço do produtor ou importador, tributos federais e estaduais, etanol anidro, fretes, custos operacionais e margens de distribuição e revenda. Desde 2002, vigora liberdade de preços nos segmentos de produção, distribuição e revenda. Não há tabelamento geral nem autorização prévia para reajustes.
Por isso, encerrar uma política de referência ao mercado internacional pode alterar o preço de realização do produtor, mas não reduz automaticamente em 50% todos os demais componentes. Para chegar ao preço final prometido, o governo precisaria combinar instrumentos e explicar a transmissão até o posto.
Há caminhos possíveis, cada qual com uma conta diferente. Se a Petrobras absorvesse parte do corte, o impacto passaria pelo caixa, pelos investimentos e pela governança da empresa. Se a redução viesse de tributos, seria necessário apontar a perda de arrecadação e a participação de União e estados. Se houvesse subsídio, o Orçamento precisaria registrar despesa e fonte de financiamento. Se a estratégia fosse controle geral de preços, seria preciso alterar o regime atual e enfrentar o risco de oferta insuficiente quando importar se tornasse menos atraente.
O programa não escolhe entre essas alternativas. Também não informa como preservar abastecimento, remunerar importações, tratar diferenças regionais ou coordenar a medida com etanol, diesel e gás de cozinha. A ausência de detalhe não prova impossibilidade. Ela reduz, porém, a confiança em qualquer avaliação de execução integral.
O que a promessa permite concluir
O benefício ao consumidor seria muito grande se o corte chegasse inteiro à bomba. A conta privada é direta. A conta pública e empresarial não é. Sem preço base, mecanismo, custeio e cronograma, não há como estimar com responsabilidade o custo fiscal, a perda de receita tributária ou o efeito no balanço da Petrobras.
Também não é correto tratar o fim da paridade com o dólar como sinônimo de gasolina pela metade. Uma decisão pode influenciar a outra, mas a proporção depende da parcela do produtor e de tudo o que ocorre depois dela. O programa apresenta o resultado desejado, não a engenharia econômica para alcançá lo.
Veja o carrossel completo em PDF.
Fontes
- PCO, Programa de governo 2026, Tribunal Superior Eleitoral, agosto de 2026, página 3.
- Rui Costa Pimenta, propostas de governo, Tribunal Superior Eleitoral, consulta em 3 de outubro de 2026.
- Levantamento de Preços de Combustíveis, últimas semanas pesquisadas, Agência Nacional do Petróleo, atualização de 2 de outubro de 2026, planilha Brasil da semana de 27 de setembro a 3 de outubro de 2026.
- Composição e estruturas de formação dos preços, Agência Nacional do Petróleo, atualização de 30 de abril de 2026.
- Preço da gasolina hoje, QuantoInfo, atualização de 2 de outubro de 2026, reprodução da média nacional da ANP.
Execução em 4 anos: 🔴 vermelho 2/10, há instrumentos de governo e uma empresa estatal, mas faltam mecanismo de transmissão, financiamento, proteção da oferta e cronograma. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.
Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 1 + financiamento 0 + capacidade administrativa 1 + condições técnicas e econômicas 0 + cronograma de quatro anos 0 = 2/10. Nota provisória, confiança baixa.

