Por Costa Nova Associados
Série Política no bolso
Data de corte: 12 de setembro de 2026, às 10h35, horário de Brasília.
A Companhia Nacional de Abastecimento marcou para 16 de setembro, às 9h, o primeiro leilão de compra de arroz destinado à formação de estoques públicos. O anúncio é concreto, mas o efeito econômico precisa ser lido na ordem certa. O governo ainda não comprou 127,33 mil toneladas, não gastou R$ 500 milhões e não fixou um preço para o pacote no supermercado.
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O que existe hoje
A Conab informou em 11 de setembro de 2026 que pretende adquirir até 127,33 mil toneladas de arroz em casca, a granel, da safra 2025/2026, classe longo fino e Tipo 1. O Aviso nº 63 reserva aproximadamente 102,08 mil toneladas para entrega no Rio Grande do Sul e 25,25 mil toneladas para Santa Catarina.
A operação foi autorizada pela Portaria Interministerial nº 20, de 2 de setembro. O ato destinou até R$ 500 milhões às aquisições relacionadas à mitigação dos possíveis efeitos do El Niño. Esse valor é limite autorizado, não execução comprovada. O volume contratado, o preço aceito e o desembolso só poderão ser conhecidos depois do pregão e de sua execução.
A compra age primeiro na porteira
O mecanismo imediato está no mercado do produtor. Quando a Conab compra parte do arroz disponível, retira essa quantidade da oferta livre e cria demanda adicional. Isso pode sustentar cotações na origem, sobretudo nos locais e padrões alcançados pelo aviso. Ao mesmo tempo, o produto comprado passa a integrar um estoque que poderá ser usado mais adiante para responder a problemas de abastecimento.
Esse caminho não equivale a conceder desconto ao consumidor. A Conab compra arroz em casca. Até chegar ao varejo, o cereal passa por beneficiamento, classificação, embalagem, transporte, distribuição e incidência de tributos, além das margens comerciais. Um eventual efeito moderador no supermercado dependerá de nova decisão sobre venda ou distribuição do estoque, de escala suficiente e da reação dos demais elos da cadeia.
Quanto representa o primeiro lote
No 11º levantamento da safra 2025/2026, divulgado em 13 de agosto, a Conab estimou a produção brasileira de arroz em 11,1 milhões de toneladas. O lote inicial de até 127,33 mil toneladas corresponde a aproximadamente 1,15% desse total.
O cálculo é simples: 127,33 mil toneladas divididas por 11,1 milhões, multiplicadas por cem. A proporção ajuda a dimensionar a operação, mas não mede sua força sobre o preço. O efeito depende da distribuição regional da oferta, da qualidade do produto, dos estoques privados, das exportações, da demanda da indústria e da expectativa para a próxima safra.
Também seria incorreto dividir R$ 500 milhões pelas 127,33 mil toneladas e chamar o resultado de preço de compra. O orçamento pode atender a mais de uma operação, enquanto o aviso define seus próprios limites e o preço efetivo será formado no leilão. Misturar teto orçamentário com lote inicial produziria uma cotação fictícia.
Quem fica exposto
Produtores e cooperativas elegíveis ganham um comprador adicional, mas precisam cumprir cadastro, regularidade e especificações do aviso. Indústrias e tradings podem enfrentar menor disponibilidade imediata de parte do grão. O consumidor recebe uma proteção potencial contra escassez futura, não uma redução garantida hoje.
A própria Conab estima que a safra de 11,1 milhões de toneladas, embora menor que a anterior, atende à demanda doméstica. Portanto, o argumento oficial combina prevenção diante do risco climático e formação de estoques. Isso é diferente de comprovação de falta atual do produto.
A conta que falta
Depois do dia 16, cinco dados merecem acompanhamento: toneladas efetivamente contratadas, preço por lote, desembolso realizado, custo de armazenagem e destino posterior do estoque. Só então será possível comparar a execução com o anúncio.
Para avaliar o bolso, será preciso observar preços equivalentes de arroz no varejo ao longo do tempo e controlar outros fatores. Uma alta ou queda logo após o pregão, isoladamente, não provará causalidade. A compra pública é uma intervenção verificável na formação de estoque. Seu efeito no pacote de cinco quilos continua sendo uma hipótese a testar.
Fontes
- Conab realiza primeiro leilão de compra de arroz para formar estoques públicos, Companhia Nacional de Abastecimento, 11 de setembro de 2026, com volumes, locais de entrega, data e regras do pregão.
- Portaria Interministerial nº 20, de 2 de setembro de 2026, Diário Oficial da União, publicada em setembro de 2026, autorização e limite de recursos.
- Estimativa aponta para uma produção de 360,8 milhões de toneladas na safra 2025/26, Conab, 13 de agosto de 2026, produção de arroz de 11,1 milhões de toneladas.
- Portal de Comercialização da Conab, consultado em 12 de setembro de 2026, registro do Aviso nº 63 e agenda do leilão.
Cálculos próprios: 127,33 mil toneladas equivalem a 1,15% de 11,1 milhões de toneladas. As parcelas de entrega representam cerca de 80,17% para o Rio Grande do Sul e 19,83% para Santa Catarina. Valores arredondados. Não há nota de execução em quatro anos porque esta edição analisa uma operação pública, não uma promessa presidencial.

