A CONTA DA ELEIÇÃO
Por Costa Nova Associados
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Lula e Flávio Bolsonaro chegam ao debate fiscal de 2026 com diagnósticos diferentes e uma lacuna em comum. Os dois prometem equilibrar as contas públicas, mas nenhum dos programas apresenta uma trajetória anual para a dívida, metas de resultado primário para cada exercício ou uma conta consolidada das medidas anunciadas. O ponto não é exigir precisão impossível de um programa eleitoral. É distinguir direção política de compromisso fiscal verificável.
O tamanho da conta
O ponto de partida é mensurável. Segundo o relatório Estatísticas fiscais, julho de 2026, publicado pelo Banco Central em 31 de agosto de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou R$ 10,9 trilhões, equivalentes a 82,5% do PIB. Em doze meses, o setor público consolidado acumulou déficit primário de R$ 89,3 bilhões, ou 0,67% do PIB. Os juros nominais somaram R$ 1,1505 trilhão, ou 8,67% do PIB, e o déficit nominal chegou a R$ 1,2398 trilhão, 9,34% do PIB.
Esses três números medem coisas diferentes. O resultado primário exclui juros e mostra a diferença entre receitas e despesas não financeiras. O juro nominal incorpora o custo financeiro da dívida. O resultado nominal reúne ambos. Uma proposta que fala apenas em cortar gasto ou elevar receita precisa explicar como essa combinação muda o resultado primário e, depois, a relação entre dívida e PIB.
O que Lula promete
Na comparação dos programas publicada pelo Poder360 em 6 de setembro de 2026, Lula propõe manter o arcabouço fiscal. A melhora viria de crescimento econômico, controle da despesa primária, maior eficiência do gasto e aumento da arrecadação. O programa também prevê manter e ampliar políticas de proteção social e o investimento público.
A vantagem operacional é partir de uma regra vigente, com instrumentos administrativos já existentes. A fragilidade está na ausência de uma ponte numérica entre o conjunto de receitas e despesas prometidas e a estabilização da dívida. Crescimento pode elevar o denominador da relação dívida sobre PIB, mas seu efeito depende do ritmo da economia, da taxa de juros e do resultado primário. Eficiência de gasto também pode produzir economia, desde que haja medidas, cronograma e valores demonstráveis.
O que Flávio promete
Flávio propõe uma nova regra fiscal, superávits primários e estabilização da dívida antes de reduzi-la. O programa eleitoral de Flávio Bolsonaro lista redução de ao menos dez ministérios, diminuição de cargos comissionados e vantagens, continuidade da reforma administrativa e retomada de privatizações.
A agenda contém medidas capazes de alterar despesas e receitas, mas não informa quanto cada uma economizaria nem qual parcela seria recorrente. Receitas de privatização, por exemplo, podem reduzir necessidades financeiras em um momento, mas não substituem sozinhas um ajuste estrutural. A conta também precisa acomodar promessas de reduzir tributos, dobrar o investimento federal em segurança pública e criar 500 mil vagas no sistema prisional em quatro anos.
O teste igual para os dois planos
Para transformar uma promessa fiscal em trajetória verificável, cada programa precisaria oferecer ao menos cinco ligações: meta anual de resultado primário, medidas com valores e base de cálculo, mudanças legislativas necessárias, separação entre efeito recorrente e temporário e caminho esperado da dívida ao fim do mandato. Nenhum dos dois programas entrega esse conjunto.
Isso não torna as propostas idênticas. Lula aposta na continuidade do arcabouço, em receitas e em eficiência. Flávio propõe substituir a regra, cortar a máquina e privatizar. A conclusão comum é mais estreita: com os documentos disponíveis, ainda não é possível refazer a conta de nenhum deles e testar se todas as promessas cabem simultaneamente no Orçamento.
Notas de execução
Promessa de Lula, equilibrar as contas mantendo o arcabouço fiscal.
Execução em 4 anos: 🟡 amarelo 5/10, há regra vigente e instrumentos administrativos, mas faltam custeio agregado, metas anuais e trajetória da dívida. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.
Promessa de Flávio Bolsonaro, produzir superávits e estabilizar para depois reduzir a dívida.
Execução em 4 anos: 🟠 laranja 4/10, cortes e nova regra têm caminho possível, mas economia, custeio das novas despesas e metas não foram quantificados. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.
Nota metodológica compacta. Lula: viabilidade jurídica e legislativa 2, financiamento 1, capacidade administrativa 1, condições técnicas e econômicas 1, cronograma de quatro anos 0. Flávio: viabilidade jurídica e legislativa 1, financiamento 0, capacidade administrativa 1, condições técnicas e econômicas 1, cronograma de quatro anos 1. Notas provisórias, confiança baixa. A falta de detalhe reduz a verificabilidade, não prova impossibilidade.
Fontes
- Estatísticas fiscais, julho de 2026, Banco Central do Brasil, publicado em 31 de agosto de 2026, tabelas e texto das páginas 1 e 2.
- Saiba quais são as propostas de Lula e Flávio para as contas públicas, Poder360, publicado em 6 de setembro de 2026.
- Flávio Bolsonaro para o Brasil vencer o atraso, programa eleitoral, agosto de 2026.
Data de corte: 12 de setembro de 2026. Valores nominais em reais e proporções do PIB conforme o Banco Central. A análise separa programa eleitoral de norma vigente e de execução comprovada.

