A conta da eleição
Por Costa Nova Associados

A promessa de zerar o déficit primário já no primeiro ano ganhou uma medida concreta na campanha de Augusto Cury. Em entrevista publicada em 22 de setembro, o assessor econômico Luiz Carlos Hauly disse que pretende reduzir em mais de 10% as compras governamentais por meio de um Banco Nacional de Preços, alimentado por notas fiscais eletrônicas. O ponto central não é se comparar preços ajuda a gestão pública. Ajuda. A questão é saber qual volume de compras estaria sujeito ao mecanismo e quanto dessa diferença poderia se converter em economia orçamentária recorrente.
O programa e o anúncio posterior
O programa apresentado pela candidatura afirma, na página 35, que o governo perseguirá déficit público próximo de zero durante o mandato. O mesmo trecho prevê controle rigoroso dos gastos, eliminação de desperdícios e redução gradual da dívida. Não há, porém, percentual de economia nas compras nem prazo de um ano para alcançar o equilíbrio.
A entrevista da campanha à Folha de S.Paulo, publicada em 22 de setembro de 2026, acrescenta esses dois elementos. Hauly fala em economia superior a 10% nas compras e em déficit primário zero no primeiro ano. Também reconhece que, sem incluir estados e municípios, seriam necessários outros controles de gestão e automação. A reportagem registra que os detalhes de implementação ainda não estavam disponíveis.
A base fiscal usada na simulação
O Prisma Fiscal do Ministério da Fazenda reúne expectativas de instituições de mercado, não o orçamento aprovado nem o resultado que será efetivamente apurado. No levantamento de setembro, a mediana para o déficit primário do governo central em 2027 ficou em R$ 45,35 bilhões. A Folha, em 15 de setembro de 2026, informou também projeções de R$ 2,750 trilhões para a receita líquida e R$ 2,792 trilhões para a despesa do governo central naquele ano.
Esse déficit projetado serve como referência comparável para testar a ordem de grandeza do anúncio. Ele não é uma herança fiscal já contratada para o próximo governo. Mudanças de arrecadação, despesas fora do cálculo da meta, crescimento econômico e decisões legislativas podem alterar o resultado.
Quanto precisaria passar pelo banco de preços
Se a economia de 10% fosse suficiente, sozinha, para eliminar um déficit de R$ 45,35 bilhões, a base anual de compras elegíveis teria de alcançar pelo menos R$ 453,5 bilhões. O cálculo é direto: R$ 45,35 bilhões divididos por 10%.
Uma análise de sensibilidade mostra a dependência da premissa. Com economia efetiva de 8%, a base necessária subiria para aproximadamente R$ 566,9 bilhões. Com 12%, cairia para R$ 377,9 bilhões. Esses valores não estimam quanto o governo compra e não projetam economia futura. Eles mostram somente o tamanho mínimo da base compatível com a promessa, sob a hipótese de que todo o ganho seja recorrente, apropriável pelo governo central e convertido em melhora do resultado primário.
Essa conversão não é automática. Preço de referência, quantidade comprada, qualidade, logística, contratos plurianuais, compras emergenciais e competição entre fornecedores influenciam o gasto final. Evitar sobrepreço também não equivale sempre a reduzir uma dotação já executada. Para medir a economia, seria necessário definir preço de referência, período de comparação, universo de contratos, exclusões e método de verificação.
O que falta para a conta fechar
O anúncio ainda não informa a base anual de compras abrangidas, quais órgãos entrariam no primeiro ano, como seriam tratadas compras estaduais e municipais, quanto custaria implantar e manter a plataforma, nem qual parcela do ganho seria recorrente. Também falta separar o efeito do banco de preços de outras medidas citadas pela campanha, como automação, fiscalização previdenciária, reforma administrativa e mudanças tributárias.
A proposta tem um mecanismo identificável e uma infraestrutura digital plausível, mas o resultado fiscal anunciado continua sem demonstração quantitativa suficiente. A meta de déficit próximo de zero durante o mandato está no programa. O prazo de um ano e a economia superior a 10% apareceram depois, em entrevista. Até que haja base de compras, cronograma e memória de cálculo, a conta permanece provisória.
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Fontes
- Plano de governo de Augusto Cury, candidatura, agosto de 2026, página 35.
- Cury fará pente fino e grosso nos gastos, mas mexer em regras da Previdência é inaceitável, diz Hauly, Folha de S.Paulo, 22 de setembro de 2026.
- Relatório mensal do Prisma Fiscal, Ministério da Fazenda, setembro de 2026.
- Economistas reduzem previsão de déficit do governo em 2026 e 2027, Folha de S.Paulo, 15 de setembro de 2026.
Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 1, financiamento 1, capacidade administrativa 1, condições técnicas e econômicas 1, cronograma 0. Total 4/10. Nota provisória, confiança baixa. A ausência de detalhes reduz a verificabilidade, mas não demonstra impossibilidade.
Execução em 4 anos: 🟠 laranja 4/10, o banco de preços é tecnicamente plausível, mas a base de compras, o custeio da implantação e o caminho para zerar o déficit já no primeiro ano ainda não foram demonstrados. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.

