A conta da eleição
Por Costa Nova Associados
O programa presidencial de Edmilson Costa promete recuperar gradualmente o poder de compra dos salários e fazer o salário mínimo alcançar, em quatro anos, o piso calculado pelo Dieese. O prazo está escrito. A trajetória anual, o custeio e o tratamento dos efeitos sobre emprego, preços e benefícios públicos não estão.
Essa distinção é decisiva. Trata-se de uma promessa registrada no programa eleitoral apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral, não de projeto de lei protocolado, norma vigente ou medida executada. O documento informa o destino, mas ainda não descreve o caminho fiscal e econômico para chegar até ele.
A distância medida com a referência de agosto
Na tabela Salário mínimo nominal e necessário, do Dieese, consultada em 22 de setembro de 2026, o salário mínimo nominal era de R$ 1.621,00 e o mínimo necessário foi calculado em R$ 7.565,86 para agosto. A diferença era de R$ 5.944,86. O valor de referência correspondia a 4,67 vezes o piso vigente, ou a um acréscimo nominal de 366,7%.
O cálculo do Dieese não é uma proposta orçamentária. É uma estimativa mensal relacionada às necessidades previstas no artigo 7º, inciso IV, da Constituição Federal, que inclui moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social para o trabalhador e sua família.
A referência também muda com os preços. Em junho de 2026, o valor necessário estava em R$ 8.110,92. Em julho, ficou em R$ 7.687,01. Em agosto, recuou para R$ 7.565,86. Portanto, a promessa não aponta para um número fixo conhecido hoje. Ela aponta para uma relação que teria de ser recalculada durante todo o mandato.
O que significaria chegar em quatro anos
Em uma simulação estática, mantendo o valor de agosto parado apenas para dimensionar a distância, quatro reajustes nominais iguais exigiriam uma alta composta de aproximadamente 47,0% ao ano. O cálculo próprio é: (R$ 7.565,86 ÷ R$ 1.621,00) elevado a um quarto, menos um.
Essa taxa não é uma previsão da campanha nem uma projeção de inflação. É somente a velocidade matemática necessária para ligar os dois valores de agosto em quatro etapas iguais. Como o piso do Dieese continuará variando, a taxa efetivamente necessária poderia ser maior ou menor.
Para comparação de escala, a proposta de Orçamento de 2027 enviada pelo Executivo ao Congresso estima salário mínimo de R$ 1.741,00, alta nominal de 7,4% sobre os R$ 1.621,00 de 2026, segundo a Agência Senado, em 31 de agosto de 2026. Esse parâmetro não mede a promessa de Edmilson Costa, mas mostra que ela exigiria uma mudança de ordem muito superior à trajetória orçamentária atualmente projetada.
A conta passa pela folha e pelo Orçamento
O primeiro impacto recairia sobre empregadores de trabalhadores remunerados no piso. Também alcançaria salários próximos ao mínimo, porque negociações coletivas e estruturas internas de remuneração tendem a considerar a distância entre faixas. O resultado sobre o emprego dependeria de produtividade, demanda, capacidade de repasse a preços, margem das empresas, informalidade e desenho da transição. Sem essas variáveis, não é responsável transformar a diferença salarial em estimativa de vagas ou de inflação.
A segunda frente é fiscal. A Constituição determina que nenhum benefício que substitua o salário de contribuição ou o rendimento do trabalho tenha valor mensal inferior ao salário mínimo, conforme o artigo 201, parágrafo 2º. O Benefício de Prestação Continuada também é fixado em um salário mínimo pelo artigo 203, inciso V. Por isso, elevar o piso altera despesas previdenciárias e assistenciais. Pode também ampliar arrecadação sobre folha e consumo, mas o programa não apresenta base de beneficiários, receitas compensatórias ou memória de cálculo.
O custo integral não pode ser estimado apenas multiplicando a diferença de R$ 5.944,86 por um número genérico de pessoas. Seria preciso separar trabalhadores privados, servidores, aposentadorias, pensões, benefícios assistenciais, vínculos formais, informalidade, incidência tributária e respostas de preços e emprego. Sem essa base, qualquer total seria aparência de precisão.
O que falta para a promessa virar plano executável
O programa precisaria transformar o objetivo em regra anual, definir como a referência mensal do Dieese seria convertida em piso legal, quantificar o impacto sobre benefícios e folha pública, indicar fontes de financiamento e apresentar medidas para produtividade, formalização e adaptação das empresas. Também seria necessário avaliar a tramitação legislativa, porque o salário mínimo nacional é fixado em lei.
Há, portanto, um instrumento jurídico conhecido e um prazo explícito. Mas a magnitude da mudança e a ausência de uma memória fiscal reduzem a sustentação da promessa no estado atual. Falta detalhamento não é prova de impossibilidade. É razão para manter a avaliação provisória e a confiança moderada.
Veja o carrossel completo em PDF.
Fontes
- Diretrizes gerais do programa do PCB, candidatura Edmilson Costa, Tribunal Superior Eleitoral, 2026, página 4 do arquivo, consulta em 22/09/2026.
- Salário mínimo nominal e necessário, Dieese, tabela mensal, dados de junho a agosto de 2026, consulta em 22/09/2026.
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, Presidência da República, texto compilado, artigos 7º, 201 e 203, consulta em 22/09/2026.
- Executivo envia Orçamento de 2027 ao Congresso com mínimo de R$ 1.741, Agência Senado, 31/08/2026.
Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 1/2, financiamento 0/2, capacidade administrativa 1/2, condições técnicas e econômicas 0/2, cronograma de quatro anos 1/2. Nota provisória, confiança média. A simulação usa valores mensais nominais de agosto de 2026, sem corrigir a futura variação do piso calculado pelo Dieese.
Execução em 4 anos: 🟠 laranja 3/10, há instrumento para reajustar o piso e prazo explícito, mas faltam trajetória, financiamento e análise de emprego, preços, benefícios e produtividade. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.

