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Salário de R$ 1 milhão: a conta de Wilson Grassi não reproduz R$ 300 bilhões

Capa do carrossel A conta da eleição sobre a proposta de salário parlamentar de R$ 1 milhão e economia anunciada de R$ 300 bilhões.

A conta da eleição

Por Costa Nova Associados

Data de corte: 28 de setembro de 2026.

Wilson Grassi, candidato à Presidência pelo Democrata, declarou que pretende elevar para R$ 1 milhão por mês o salário de cada deputado federal e senador. Em contrapartida, acabaria com as emendas parlamentares e faria cada congressista pagar despesas hoje cobertas por recursos públicos, como assessoria, carro e plano de saúde. Segundo a entrevista publicada pela Folha de S.Paulo em 29 de agosto, o candidato estima uma economia de aproximadamente R$ 300 bilhões por ano.

É uma promessa de campanha, não uma norma vigente. A busca no plano oficial entregue ao Tribunal Superior Eleitoral não encontrou as expressões “R$ 1 milhão”, “subsídio parlamentar” ou “emendas parlamentares”. Também não identificamos, até a data de corte, uma proposição protocolada com o desenho descrito. Portanto, a análise abaixo compara a declaração pública com os dados atualmente verificáveis, sem tratá-la como programa detalhado ou medida já em execução.

A primeira conta é a folha salarial

A Câmara informa que o subsídio bruto mensal de deputados e senadores é de R$ 46.366,19 desde 1º de fevereiro de 2025, conforme o Decreto Legislativo 172/2022. Existem 513 deputados federais e 81 senadores, total de 594 parlamentares.

Aplicando o mesmo critério aos dois cenários, 594 pessoas, doze pagamentos mensais e sem encargos, benefícios ou verbas indenizatórias, a remuneração bruta anual passa de cerca de R$ 330,5 milhões para R$ 7,128 bilhões. O aumento direto é de aproximadamente R$ 6,798 bilhões por ano. O salário individual seria 21,57 vezes o valor vigente.

Esse é um cálculo próprio e deliberadamente restrito. Ele não inclui a ajuda de custo prevista no início e no fim do mandato, nem quantifica assessores, cotas, imóveis funcionais, saúde ou estrutura administrativa. A proposta não define se todas essas despesas seriam extintas, transferidas ao parlamentar ou mantidas parcialmente. Sem essa lista, não existe base auditável para somar o restante.

Emendas não explicam R$ 300 bilhões

O Raio X da Lei Orçamentária de 2026, produzido pela Consultoria de Orçamento da Câmara após os vetos presidenciais, registra R$ 49,9 bilhões em emendas parlamentares. Esse é valor autorizado no orçamento, não comprovação de pagamento integral.

Em uma simulação puramente aritmética, eliminar R$ 49,9 bilhões de emendas e absorver o aumento anual de R$ 6,798 bilhões na folha produziria diferença bruta de aproximadamente R$ 43,1 bilhões. O resultado não é estimativa de economia efetiva, porque desconsidera execução orçamentária, despesas que podem migrar para ministérios, contratos, transição, tributos e o conjunto de verbas parlamentares. Ainda assim, ele mostra que os dois números publicamente disponíveis não reproduzem os R$ 300 bilhões anunciados.

Para sustentar a cifra, seria necessário apresentar uma ponte de cálculo: quais despesas seriam encerradas, qual foi o valor executado em cada uma, em que exercício, como seriam tratados compromissos já assumidos e quais funções deixariam de existir ou seriam pagas diretamente pelos parlamentares. A referência genérica a reportagens sobre emendas públicas e secretas não substitui esse demonstrativo.

A Presidência não decide sozinha

O artigo 49, inciso VII, da Constituição atribui exclusivamente ao Congresso Nacional a fixação do subsídio de deputados e senadores. As emendas individuais e de bancada, além disso, têm limites e execução obrigatória disciplinados pelo artigo 166. Uma mudança integral exigiria negociação com o próprio Congresso e, para retirar garantias inscritas na Constituição, uma proposta de emenda constitucional aprovada em dois turnos por três quintos dos votos em cada Casa.

Isso não torna a reforma juridicamente impossível. Torna incorreto apresentá-la como decisão administrativa disponível ao presidente. O obstáculo central é de desenho e coalizão legislativa: o candidato propõe retirar poder orçamentário do Parlamento, elevar substancialmente a remuneração e transferir custos operacionais, mas ainda não publicou texto normativo, cronograma de transição ou memória de cálculo verificável.

O que está documentado

  • Anúncio: entrevista com a promessa e a economia declarada de cerca de R$ 300 bilhões.
  • Programa eleitoral: o plano oficial do Democrata tem 58 páginas, mas as expressões centrais desta promessa não aparecem no documento pesquisável.
  • Proposição protocolada: não identificada nas bases consultadas até 28 de setembro de 2026.
  • Norma vigente: subsídio de R$ 46.366,19 e regras constitucionais para emendas parlamentares.
  • Execução comprovada: inexistente, pois a medida ainda é promessa de campanha.

Fontes

Execução em 4 anos: 🟠 laranja 3/10, a mudança tem caminho constitucional, mas depende de maioria qualificada no Congresso e não traz memória de cálculo capaz de sustentar a economia anunciada. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.

Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 0 de 2; financiamento 1 de 2; capacidade administrativa 1 de 2; condições técnicas e econômicas 0 de 2; cronograma de quatro anos 1 de 2. Total 3 de 10. Nota provisória, confiança média. A ausência de detalhamento não prova impossibilidade, mas reduz a verificabilidade.

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