A CONTA DA ELEIÇÃO
Por Costa Nova Associados
Uma carteira de projetos de infraestrutura estimada em pelo menos R$ 204 bilhões deve atravessar a eleição e chegar ao próximo mandato. O número é relevante, mas precisa ser lido com precisão. Ele não representa dinheiro já gasto, obra concluída ou dotação que ficará automaticamente disponível ao próximo presidente. Trata-se de investimento esperado em concessões que ainda dependem de etapas regulatórias, licitações, contratos e desembolsos ao longo de vários anos.
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O que mudou no calendário
Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo em 20 de setembro de 2026 identificou projetos rodoviários, ferroviários, portuários e hidroviários transferidos para 2027 ou para anos posteriores. A reportagem registra que o governo realizou 50 concessões de infraestrutura entre 2023 e 2025, mas parte relevante da agenda de 2026 não chegará ao leilão neste ano.
Na fotografia apresentada, 13 leilões rodoviários estavam previstos para 2026 e sete devem ocorrer. A razão simples é 7 dividido por 13, ou 53,8%. Nas ferrovias, um dos oito leilões previstos pode avançar, equivalente a 12,5%. Nos portos, três de 18 concessões avançaram até setembro, ou 16,7%. As cinco concessões hidroviárias foram postergadas. Esses percentuais medem quantidade de projetos, não valor financeiro, extensão das obras ou qualidade dos contratos.
R$ 204 bilhões não são gasto imediato
Em uma concessão, o edital estima obrigações de investimento que o vencedor deverá executar durante o contrato. A assinatura cria compromissos, mas não transforma o valor total em desembolso no primeiro ano. A Lei nº 8.987, de 13 de fevereiro de 1995 organiza o regime de concessões e exige licitação. Nas parcerias público privadas, a Lei nº 11.079, de 30 de dezembro de 2004 acrescenta regras próprias, inclusive sobre contraprestação pública e garantias.
O caminho documental é mais longo do que a cifra sugere. Estudos precisam definir demanda, engenharia, tarifa, riscos e retorno esperado. Em seguida podem vir consulta pública, análise do Tribunal de Contas da União, licença ambiental, edital, leilão, assinatura e mobilização financeira. Só depois começa a execução física, normalmente por etapas. Portanto, o valor da carteira informa escala potencial. Não mede execução observada.
Como o atraso chega à economia real
O primeiro efeito é sobre a demanda por engenharia, equipamentos, cimento, aço, serviços ambientais e financiamento de longo prazo. Se o leilão passa de 2026 para 2027, parte dessas contratações também se desloca. O segundo efeito aparece na logística. Duplicações, terminais, ferrovias e melhorias portuárias só reduzem tempo de viagem, perdas e custo de transporte depois que entram em operação. A defasagem entre anúncio e benefício ao usuário pode ser de anos.
Empresas exportadoras, transportadoras, produtores rurais e indústrias com cadeias longas ficam mais expostos. O consumidor pode ser afetado indiretamente quando o frete integra o preço final. Ainda assim, não é correto atribuir qualquer variação de alimentos ou combustíveis ao adiamento de um leilão. Câmbio, preço internacional, safra, tributos, estoques e concorrência também influenciam o preço.
A conta que o próximo presidente receberá
A herança tem dois lados. Projetos mais maduros podem acelerar investimentos no início do mandato seguinte. Projetos ainda presos em estudos, disputas ou licenciamento podem continuar apenas como carteira anunciada. O dado de R$ 204 bilhões não permite concluir que houve perda definitiva desse montante, nem que ele será integralmente executado a partir de 2027.
O teste verificável para os candidatos é outro: indicar quais projetos terão prioridade, em que estágio estão, quais riscos ainda precisam ser alocados e qual cronograma liga edital, contrato e obra. Sem essa sequência, somar valores de carteiras produz uma promessa visualmente grande, mas contavelmente incompleta.
Data de corte: 20 de setembro de 2026. Valores nominais. Os percentuais foram calculados pela Costa Nova Associados a partir das quantidades informadas pela reportagem citada. Não houve soma própria dos valores individuais dos projetos.
Fontes
- Projetos de ao menos R$ 204 bi em infraestrutura ficam para próximo presidente, Folha de S.Paulo, 20 de setembro de 2026.
- Lei nº 8.987, Presidência da República, 13 de fevereiro de 1995, texto compilado.
- Lei nº 11.079, Presidência da República, 30 de dezembro de 2004, texto compilado.
- Concessões rodoviárias, Agência Nacional de Transportes Terrestres, página institucional consultada em 20 de setembro de 2026.

