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Menos tarifa entre Estados Unidos e China muda a conta da soja no Brasil

Carrossel Do mundo ao Brasil, capa sobre redução tarifária entre Estados Unidos e China, US$ 30 bilhões em mercadorias de cada lado.

Por Costa Nova Associados

Série: Do mundo ao Brasil

Estados Unidos e China anunciaram em 26 de setembro de 2026 um entendimento para reduzir tarifas sobre US$ 30 bilhões em mercadorias de cada lado. O anúncio alcança bens considerados não sensíveis. Do lado americano, aparecem produtos agrícolas, madeira e cosméticos. Do lado chinês, pequenos eletrodomésticos, brinquedos e artigos de decoração. A informação foi divulgada após a visita do presidente chinês Xi Jinping a Washington.

A primeira distinção é decisiva. Existe um acordo político anunciado, mas a relação completa de produtos, as alíquotas novas, o cronograma aduaneiro e a data de vigência ainda não foram publicados no material consultado. A própria formulação oficial citada pela Reuters fala em consenso sobre recomendações para tratamento tarifário mais favorável. Portanto, ainda não há base para calcular quanto uma tonelada de soja, uma carga de madeira ou um eletrodoméstico ficará mais barato.

O canal que interessa ao Brasil

Uma tarifa é cobrada na importação. Quando ela cai, o produto estrangeiro tende a entrar com custo tributário menor, embora o preço final também dependa de câmbio, frete, margem comercial e contratos. A OMC distingue a alíquota consolidada, que funciona como teto assumido pelo país, da alíquota aplicada, efetivamente cobrada. Neste caso, ainda falta saber exatamente quais alíquotas aplicadas serão alteradas.

Para o Brasil, o principal canal está na China. Um estudo do Banco Central, com dados de 2024, mostra que Estados Unidos e China responderam juntos por quase 40% das exportações e importações brasileiras. O Brasil exportou US$ 94 bilhões para a China e registrou superávit bilateral de US$ 31 bilhões. Cinco grupos, soja, petróleo, minério de ferro, carne bovina e celulose, concentraram 90% dessas vendas.

O Banco Central também identificou quatro produtos nos quais Brasil e Estados Unidos concorrem de forma relevante no mercado chinês: soja, petróleo, carne bovina e algodão. Em 2024, esses itens somaram US$ 59 bilhões nas vendas brasileiras à China e US$ 21 bilhões nas vendas americanas. Na soja, foram US$ 31 bilhões do Brasil e US$ 13 bilhões dos Estados Unidos.

O mecanismo, portanto, é verificável, mas o resultado não está dado. Se a nova redução tarifária chinesa alcançar soja ou outros produtos agrícolas que competem diretamente com o Brasil, a mercadoria americana pode recuperar parte da competitividade perdida. Isso pode reduzir o prêmio recebido pelo produto brasileiro, deslocar volumes ou alterar a distribuição das compras chinesas ao longo da safra. A exposição chega a produtores, tradings, terminais portuários, ferrovias e empresas ligadas ao frete.

Por que não é correto prever queda imediata

Em 2018, durante a rodada anterior de conflito comercial, as exportações brasileiras de soja para a China cresceram quase US$ 7 bilhões em relação a 2017, segundo o Banco Central. Esse precedente ajuda a identificar a direção possível de um choque tarifário, mas não autoriza repetir o mesmo número ao contrário. Desde então, os estoques chineses aumentaram, os estoques brasileiros diminuíram e a capacidade de resposta depende de safra, contratos e logística.

Também é cedo para atribuir qualquer movimento de ativo brasileiro ao anúncio. A confirmação detalhada foi publicada no sábado, 26 de setembro. A B3 estava fechada, assim como os principais mercados futuros agrícolas. O último pregão disponível, sexta feira, ocorreu antes dessa divulgação consolidada. A reação observável começa apenas quando os mercados reabrirem, e mesmo assim terá de ser separada de câmbio, clima, petróleo, juros e notícias domésticas.

Do lado das importações, o sinal também é misto

O acordo inclui produtos chineses como pequenos eletrodomésticos e brinquedos vendidos aos Estados Unidos. Se o mercado americano absorver mais desses bens, pode haver menos necessidade de redirecioná los para outros destinos, inclusive o Brasil. Esse seria um fator de alívio para fabricantes brasileiros que concorrem com importados.

Mas o efeito pode caminhar no sentido oposto. Uma produção chinesa maior, apoiada por escala e capacidade ociosa, pode reduzir custos unitários e pressionar preços internacionais. Entre 2019 e 2024, o volume importado pelo Brasil da China aumentou 98%, enquanto o índice de preços desses bens caiu 11%, segundo o Banco Central. Para o consumidor, eventual mudança na prateleira ainda passa por câmbio, frete, tributos, estoques e margem do varejo. Não existe repasse automático nem prazo único.

O que vale acompanhar

Três documentos transformarão o anúncio em algo mensurável: a lista tarifária por código de produto, as alíquotas antes e depois e a data efetiva de aplicação. Para o Brasil, o primeiro teste será verificar se soja, petróleo, carne bovina ou algodão aparecem na lista chinesa. O segundo será observar volumes, preços médios e destinos no Comex Stat, sempre comparando produtos e períodos equivalentes. Até lá, a conclusão responsável é limitada: o acordo reduz uma barreira entre os dois maiores parceiros comerciais do Brasil e pode redistribuir fluxos, mas ainda não permite calcular perda de exportação ou economia para o consumidor.

Fontes e data de corte

Veja o carrossel completo em PDF.

Data de corte: 27 de setembro de 2026, 18h50, horário de Brasília. Valores em dólares dos Estados Unidos e base nominal, salvo indicação diferente. Não houve negociação da B3 no domingo.

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