A conta da eleição
Por Costa Nova Associados
Leonardo Avalanche registrou no programa de governo uma promessa de fácil compreensão e de difícil fechamento financeiro. Todo brasileiro que concluir um curso de empreendedorismo oferecido pelo governo receberia um iPhone de última geração e um ano de internet gratuita. O documento acrescenta que parte dos participantes poderia ser contratada para atuar na comunicação oficial.
O compromisso está formalizado no plano apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral. Portanto, não é apenas uma declaração de campanha. Ainda assim, o programa não informa quantas pessoas fariam o curso, quanto custaria cada aparelho numa compra pública, qual seria o valor do plano móvel, como ocorreria a distribuição, nem quanto seria reservado aos contratos de comunicação.
O preço permite testar a ordem de grandeza
Na consulta feita em 27 de setembro de 2026, a Apple Brasil anunciava o iPhone 18 Pro, modelo mais recente da linha Pro, a partir de R$ 11.999. Esse é um preço de varejo, não uma estimativa de licitação. Uma compra em escala pode obter condições diferentes. Mesmo assim, o valor é útil como referência transparente para testar a dimensão do custeio apresentado.
O plano afirma que o governo federal gasta cerca de R$ 3,5 bilhões por ano com emissoras, mídia e agências de publicidade, e que essa verba seria suficiente para financiar cursos, aparelhos, internet e contratos, sem aumento de imposto.
Se, por hipótese, os R$ 3,5 bilhões fossem aplicados integralmente na compra de aparelhos ao preço de R$ 11.999, a conta seria:
R$ 3.500.000.000 ÷ R$ 11.999 = 291.691 aparelhos
O resultado de aproximadamente 291,7 mil unidades é uma simulação máxima. Ele não inclui internet, capacitação, logística, suporte, reposição, fiscalização nem remuneração dos participantes contratados. Se o mesmo valor estivesse disponível em cada um dos quatro anos, sem inflação e sem nenhum outro gasto, o limite teórico seria de aproximadamente 1,17 milhão de aparelhos. O programa não informa se essa é a escala pretendida nem quantos beneficiários espera atender.
Os R$ 3,5 bilhões não formam uma única verba livre
O Acórdão 432/2026 do Tribunal de Contas da União ajuda a separar os números. O processo registra que a previsão superior a R$ 3,5 bilhões para 2025 abrangia publicidade do Executivo federal, inclusive entidades estatais. No mesmo documento, o TCU relata que a Secom informou orçamento de R$ 562,5 milhões para contratação de publicidade e propaganda em 2025.
Aplicando o mesmo preço de varejo somente ao recorte da Secom, o cálculo seria:
R$ 562.500.000 ÷ R$ 11.999 = 46.879 aparelhos
Também é apenas uma simulação de escala. A diferença entre 291,7 mil e 46,9 mil mostra por que não se pode tratar toda a publicidade federal e os orçamentos das estatais como uma conta única, disponível para transferência imediata. Banco do Brasil, Caixa e Correios têm estruturas orçamentárias, objetivos empresariais e contratos próprios. Já a publicidade pública possui finalidades legais, como informar serviços, orientar a população e divulgar atos oficiais.
O mesmo dinheiro aparece em quatro frentes
Há ainda uma disputa interna dentro da própria promessa. O valor citado deveria pagar aparelhos, um ano de internet, cursos e contratos de comunicação. Quanto maior o número de concluintes, maior o gasto com os três primeiros itens. Quanto mais recursos forem destinados à remuneração dos participantes, menos sobra para equipamentos e conectividade.
Isso não prova que a política seja impossível. Aparelhos podem ser licitados, cursos podem ser estruturados e planos móveis podem ser contratados. O problema é que a implementação integral não pode ser verificada sem público estimado, custos unitários completos, divisão anual do orçamento, regra de elegibilidade, mecanismo de fiscalização e cronograma.
Também seria necessário definir se o benefício cria um direito para qualquer pessoa que conclua o curso ou se haverá vagas limitadas. A primeira opção produz uma despesa aberta, dependente da demanda. A segunda exige critérios de seleção que o programa ainda não apresenta.
Conclusão editorial
A promessa tem objeto identificável e uma possível fonte geral de recursos, mas o custeio apresentado soma orçamentos distintos e atribui quatro usos ao mesmo dinheiro. O preço atual do aparelho mostra que a verba citada suporta centenas de milhares de unidades, não uma universalização demonstrada. A análise pode mudar se a campanha divulgar público estimado, preço de aquisição, custo da internet, orçamento do curso e distribuição entre as despesas.
Veja o carrossel completo em PDF.
Fontes
- Plano de Governo de Leonardo Avalanche, Tribunal Superior Eleitoral, 2026, páginas 6 e 7.
- Comprar iPhone, Apple Brasil, consulta em 27 de setembro de 2026.
- Acórdão 432/2026, Plenário, Tribunal de Contas da União, sessão de 25 de fevereiro de 2026, processo 022.654/2025-9.
- Dados de campanhas publicitárias, Secretaria de Comunicação Social, consulta em 27 de setembro de 2026.
- Leonardo Avalanche quer reduzir impostos e zerar fila do SUS, Agência Brasil, 18 de setembro de 2026.
Método do cálculo: valores nominais, sem correção monetária. O preço de R$ 11.999 é referência de varejo consultada em 27 de setembro de 2026. As divisões por R$ 3,5 bilhões e R$ 562,5 milhões são cálculos próprios e não representam orçamento oficial do programa nem preço de contratação pública.
Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 1 + financiamento 0 + capacidade administrativa 1 + condições técnicas e econômicas 1 + cronograma de quatro anos 1 = 4/10. Nota provisória, confiança baixa.
Execução em 4 anos: 🟠 laranja 4/10, a compra e a capacitação são administrativamente possíveis, mas o financiamento apresentado usa o mesmo orçamento para aparelhos, internet, cursos e contratos sem delimitar beneficiários ou cronograma. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.

