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Flávio promete ampliar a rede de gás, mas produção recorde não vira oferta na mesma proporção

Capa preta e branca: Gás produzido não é gás disponível.

A conta da eleição

Por Costa Nova Associados

O Brasil bateu novo recorde de produção de petróleo e gás em agosto. O dado, divulgado pela ANP em 1º de outubro, oferece uma medida concreta para examinar a promessa de Flávio Bolsonaro de ampliar a infraestrutura de gás natural. O programa identifica um gargalo real, mas trata como desperdício uma diferença que reúne destinos econômicos e operacionais distintos.

A promessa registrada

Nas páginas 51 e 52 do programa oficial apresentado ao TSE, Flávio propõe um Programa Nacional de Segurança Energética voltado a refino, processamento, escoamento e transporte de combustíveis e gás. O texto promete apoiar a expansão das redes de escoamento e transporte conforme a demanda, com segurança jurídica, regras estáveis e investimento privado. Também defende permitir a exploração de gás não convencional por fraturamento hidráulico, o fracking, com responsabilidade ambiental e cumprimento da lei.

Isso é um programa eleitoral oficial. Não é um gasoduto identificado, uma proposição protocolada, uma norma nova nem uma obra em execução. O documento tampouco informa custo, fonte de financiamento, lista de projetos, capacidade adicional, licenças, metas anuais ou prazo para redução do preço.

Produção recorde, oferta bem menor

Segundo a ANP, em 1º de outubro de 2026, a produção de gás natural alcançou 220,55 milhões de metros cúbicos por dia em agosto. O volume cresceu 2,6% em relação a julho e 16,8% diante de agosto de 2025. O pré-sal respondeu por 177,58 milhões de metros cúbicos por dia.

A disponibilidade ao mercado foi de 69,41 milhões de metros cúbicos por dia. A queima atingiu 4,16 milhões e o aproveitamento informado pela agência foi de 98,1%. Cálculo próprio: a queima representou 1,89% da produção bruta. Portanto, os 151,14 milhões de metros cúbicos que separam produção e disponibilidade não podem ser classificados integralmente como gás desperdiçado.

A contabilidade do setor separa produção, reinjeção, consumo nas próprias operações, queima, perdas e disponibilidade. Reinjeção pode sustentar a pressão dos reservatórios e a produção de petróleo. Consumo próprio alimenta plataformas e unidades de processamento. Queima e perdas são outra categoria. Sem decompor essas parcelas, a diferença aritmética não mede desperdício.

Onde a infraestrutura pode mudar a conta

Mais capacidade de processamento, escoamento e transporte pode converter parte do gás produzido em oferta comercial. Esse é o elo mais sólido da proposta. A Lei 14.134, de 8 de abril de 2021, já organiza atividades de transporte, escoamento, tratamento, processamento, estocagem e comercialização. Há, portanto, um marco vigente sobre o qual novos investimentos podem avançar.

Mas oferta adicional não chega automaticamente como redução equivalente no preço final. Entre o poço e o consumidor existem processamento, gasodutos, contratos, tarifas de transporte e distribuição, tributos, concorrência entre fornecedores e demanda firme para sustentar cada projeto. Uma expansão pode aumentar a segurança de suprimento sem produzir a queda de preço imaginada, sobretudo se a obra tiver custo elevado ou utilização baixa.

O desenho competitivo também continua em construção. A página de consultas e audiências públicas da ANP para 2026 registra uma proposta sobre acesso não discriminatório de terceiros a gasodutos de escoamento e instalações de processamento, cuja audiência ocorreu em 1º de outubro. Outra consulta trata do Programa de Redução da Concentração no Mercado de Gás Natural, com audiência prevista para 21 de outubro. São proposições regulatórias em andamento, ainda não normas finais.

A parcela que o programa não calcula

A frase de que o país produz gás no pré-sal, desperdiça parte dele por falta de escoamento e importa gás caro reúne três fatos diferentes. Existe produção crescente. Existe volume reinjetado ou consumido antes do mercado. Existem importações, sobretudo para complementar oferta e atender condições de demanda. Para transformar essa combinação em uma política mensurável, seria necessário indicar quais projetos deslocariam importações, quanto gás adicional chegaria ao mercado, em que regiões, a qual custo e em qual prazo.

O fracking é outra frente, não uma extensão automática da infraestrutura do pré-sal. O programa não apresenta áreas, escala, estudos ambientais, custo nem cronograma. A falta desses detalhes não prova inviabilidade, mas impede tratar a exploração não convencional como oferta contratada para os próximos quatro anos.

Data de corte: 2 de outubro de 2026. Valores nominais em milhões de metros cúbicos por dia. Percentual de queima calculado por Costa Nova Associados, 4,16 dividido por 220,55.

Veja o carrossel completo em PDF.

Fontes


Execução em 4 anos: 🟡 amarelo 5/10, há produção crescente, marco legal e demanda potencial, mas o programa não identifica obras, custo, financiamento, licenças, metas de oferta nem prazo de redução do preço. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.

Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 1/2; financiamento 1/2; capacidade administrativa 1/2; condições técnicas e econômicas 1/2; cronograma de quatro anos 1/2. Total 5/10. Nota provisória, confiança média a baixa.

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