A conta da eleição
Por Costa Nova Associados
O programa de Samara Martins propõe usar as reservas internacionais do Brasil para construir 12,5 milhões de casas populares, avaliadas em R$ 150 mil cada. A multiplicação é direta: 12,5 milhões vezes R$ 150 mil resultam em R$ 1,875 trilhão. Esse valor corresponde a 98,7% dos R$ 1,9 trilhão que o próprio documento atribui às reservas.
A conta aritmética fecha dentro das grandezas apresentadas pela candidatura. A execução econômica, porém, depende de etapas que não aparecem no programa: transformar ativos externos em recursos orçamentários, definir autorização legal, administrar o impacto cambial e construir milhões de unidades com terrenos, infraestrutura e mão de obra disponíveis.
O que o programa registra
Na página 18 do programa oficial, a candidatura afirma que o Brasil possui US$ 366 bilhões em reservas internacionais, equivalentes a R$ 1,9 trilhão. Em seguida, calcula que o montante permitiria construir 12,5 milhões de casas de R$ 150 mil. O texto também menciona déficit habitacional de 6,9 milhões de moradias e sustenta que ele poderia ser eliminado em menos de um ano.
Há três elementos diferentes nessa passagem. O primeiro é um estoque de ativos em moeda estrangeira. O segundo é um preço unitário em reais. O terceiro é uma meta física de construção. Colocá-los na mesma frase facilita a comparação, mas não demonstra o mecanismo que liga um ao outro.
Reserva internacional não é caixa livre
O Banco Central define as reservas como ativos externos do Brasil sob sua administração. Elas servem à liquidez em moeda estrangeira e à capacidade de resposta a choques externos. Pela Lei Complementar nº 179, o Banco Central possui autonomia e objetivos próprios, entre eles assegurar a estabilidade de preços, zelar pela estabilidade e eficiência do sistema financeiro e suavizar flutuações do nível de atividade.
Isso não torna qualquer uso das reservas juridicamente impossível. Significa que o programa precisaria especificar a operação. Seria venda de dólares? Transferência de resultado ao Tesouro? Constituição de fundo? Emissão de reais contra redução dos ativos externos? Cada caminho produz efeitos contábeis, fiscais e cambiais distintos.
O documento não responde essas perguntas. Também não fixa um nível mínimo de reservas que permaneceria disponível. Pela conta apresentada, a construção consumiria quase todo o equivalente em reais citado no próprio programa, antes de despesas acessórias e antes de qualquer variação do câmbio.
O ritmo físico da promessa
Para avaliar a implementação integral em quatro anos, a meta exigiria média de 3,125 milhões de unidades por ano, cerca de 260 mil por mês. Esse cálculo não é cronograma da candidatura. É apenas a divisão uniforme da promessa pelo mandato.
O trecho mais forte do programa é ainda mais curto: resolver 6,9 milhões de moradias em menos de um ano. Isso representaria mais de 575 mil unidades mensais se a resposta fosse exclusivamente construção nova. O programa não apresenta distribuição territorial, capacidade anual do setor, sequência de licitações, disponibilidade de terrenos ou prazo de licenciamento.
R$ 150 mil não encerra o custo
O valor unitário precisa ser definido. Uma casa não existe isoladamente. Terreno, regularização, ligação de água e esgoto, energia, transporte, equipamentos públicos, projeto, fiscalização e variação de materiais podem estar dentro ou fora dos R$ 150 mil. Sem essa composição, não é possível tratar R$ 1,875 trilhão como orçamento completo.
Também falta a referência técnica do déficit de 6,9 milhões. O programa atribui o número ao Ministério das Cidades, mas não informa ano, estudo ou tabela. Déficit habitacional não é necessariamente sinônimo de necessidade de uma casa nova para cada família. Metodologias oficiais costumam separar componentes como habitação precária, coabitação e ônus excessivo com aluguel. A política adequada pode variar conforme o componente.
O que a conta permite concluir
A proposta tem uma vantagem incomum entre programas eleitorais: fornece quantidade, valor unitário e fonte patrimonial pretendida. Isso permite conferir a multiplicação. O resultado, porém, mostra o próprio limite da ideia. A meta absorveria 98,7% do valor em reais atribuído às reservas, sem detalhar conversão, proteção cambial, infraestrutura ou capacidade construtiva.
Veja o carrossel completo em PDF.
Fontes
- Propostas de governo, Eleições 2026, Tribunal Superior Eleitoral, arquivo atualizado em 22 de setembro de 2026, programa de Samara Martins, página 18.
- Reservas internacionais, Banco Central do Brasil, consulta em 23 de setembro de 2026.
- Lei Complementar nº 179, Presidência da República, 24 de fevereiro de 2021.
- Cálculos próprios da Costa Nova Associados, valores nominais, data de corte em 23 de setembro de 2026.
Execução em 4 anos: 🔴 vermelho 2/10, a multiplicação identifica uma fonte patrimonial, mas a proposta consumiria quase todo o estoque citado e não detalha autorização, conversão cambial, infraestrutura nem capacidade de construção. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.
Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 0, financiamento 1, capacidade administrativa 0, condições técnicas e econômicas 1, cronograma de quatro anos 0. Nota provisória, confiança baixa.

