A conta da eleição
Por Costa Nova Associados
Uma cifra de forte apelo emocional começou a circular em vídeos feitos com inteligência artificial: Luiz Inácio Lula da Silva teria prometido elevar o salário mínimo para R$ 3.000. O número, porém, não aparece no programa de governo registrado pela candidatura no Tribunal Superior Eleitoral. A checagem do Projeto Comprova, publicada em 21 de setembro de 2026, classificou a atribuição como falsa.
O que é falso e o que está documentado
O conteúdo viral não é anúncio oficial, item de programa, proposição protocolada ou norma vigente. Os vídeos reproduzem a imagem de Lula ao lado de pessoas comuns e associam a ele o valor de R$ 3.000. Segundo o Projeto Comprova, os materiais apresentam sinais de geração por inteligência artificial e exploram a cifra como chamada para engajamento.
O documento oficial disponível no portal do TSE, consultado em 26 de setembro de 2026, promete manter a política de valorização do salário mínimo, com reajuste acima da inflação. Não há valor específico de R$ 3.000.
A regra que já existe
A promessa oficial não parte do zero. A Lei nº 14.663, de 28 de agosto de 2023, instituiu uma política permanente de valorização. O artigo 3º combina a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor acumulada em doze meses até novembro com o crescimento real do Produto Interno Bruto de dois anos antes. Se o PIB tiver variação real negativa, a lei prevê apenas a correção pela inflação.
Para 2026, o Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, fixou o salário mínimo em R$ 1.621 a partir de 1º de janeiro. Esse é o valor vigente. O decreto é execução comprovada da regra legal, não promessa de campanha.
A projeção para 2027 ainda não é o valor definitivo
O Projeto de Lei Orçamentária Anual para 2027, PLN 24/2026, trabalha com R$ 1.741. A referência aparece na documentação orçamentária citada pela checagem e representa aumento nominal de R$ 120 sobre o piso de 2026. Cálculo próprio: R$ 120 divididos por R$ 1.621 resultam em 7,4%.
O valor final depende do INPC acumulado até novembro e do decreto que será editado ao fim do ano. Portanto, R$ 1.741 é uma projeção orçamentária, não uma norma já vigente. Da mesma forma, comparar essa projeção com os R$ 3.000 do vídeo não transforma o conteúdo falso em proposta. Apenas mede a distância entre uma cifra fabricada e o cenário documentado.
Cálculo próprio: de R$ 1.621 para R$ 3.000, a diferença seria de R$ 1.379, equivalente a 85,1%. Entre R$ 1.741 e R$ 3.000, a diferença seria de R$ 1.259, ou 72,3%. São variações nominais, sem correção por inflação e sem estimativa de custo fiscal. Não há base documental para tratá-las como compromisso de Lula.
A conta correta da promessa real
A avaliação deve recair sobre o que foi prometido oficialmente: manter a política de ganho real. A viabilidade jurídica recebe 2 pontos, porque a lei e a fórmula já existem. O financiamento recebe 1 ponto, pois reajustes do piso repercutem em benefícios previdenciários e assistenciais e exigem espaço orçamentário anual. A capacidade administrativa recebe 2 pontos, já que o cálculo e a edição de decreto fazem parte de uma rotina estabelecida.
As condições técnicas e econômicas recebem 2 pontos, porque os índices e a fórmula estão definidos, embora o resultado varie com inflação, PIB e limites fiscais. O cronograma de quatro anos recebe 1 ponto, pois manter a política durante todo o mandato depende das condições de cada orçamento e de não haver mudança legal. Total: 8 pontos em 10.
Fontes
- Planos de governo dos candidatos ao cargo de Presidente da República, Eleições 2026, Tribunal Superior Eleitoral, consulta em 26 de setembro de 2026.
- Não é verdade que Lula tenha proposta para ter salário mínimo de R$ 3 mil, Projeto Comprova no UOL, 21 de setembro de 2026.
- Lei nº 14.663, Presidência da República, 28 de agosto de 2023, artigos 3º e 4º.
- Decreto nº 12.797, Presidência da República, 23 de dezembro de 2025, artigo 1º.
Execução em 4 anos: 🟢 verde claro 8/10, a política já tem lei, fórmula e rotina administrativa, mas exige acomodação orçamentária anual. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.
Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 2, financiamento 1, capacidade administrativa 2, condições técnicas e econômicas 2, cronograma de quatro anos 1. Total 8/10. Nota provisória, confiança média.

