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Imposto Único de Wilson: a alíquota de 2% fecha a conta?

Carrossel A conta da eleição: 2% em cada lançamento fecha a conta?

A conta da eleição

Por Costa Nova Associados

Wilson Grassi propõe substituir nove tributos federais por um Imposto Único Federal cobrado sobre movimentações financeiras. O programa oficial diz que a alíquota seria de 2% em cada lançamento a débito e a crédito. Também promete elevar a faixa de isenção do Imposto de Renda da pessoa física para cinco salários mínimos, valor que o documento calcula em R$ 8.105 em 2026.

É uma proposta formalmente mais detalhada do que um anúncio de campanha. O texto está registrado no Tribunal Superior Eleitoral, identifica os tributos substituídos, estima a arrecadação necessária, prevê uma proposta de emenda à Constituição no primeiro semestre e admite que a transição dependeria de lei complementar e negociação com o Congresso. Ainda assim, a conta central não fecha com transparência suficiente.

O que sairia e quanto o novo tributo precisaria arrecadar

A lista de tributos substituídos inclui contribuição patronal sobre a folha, Cofins, CSLL, IOF, IPI, salário educação, Cide, ITR e contribuições do Sistema S. O programa estima que esse conjunto arrecade R$ 1,562 trilhão por ano. A nova isenção do Imposto de Renda custaria outros R$ 266 bilhões anuais. A soma define a meta declarada para o Imposto Único: R$ 1,828 trilhão por ano.

O número é grande, mas não é impossível avaliá lo. O Banco Central informou que o sistema de pagamentos movimentou R$ 59,7 trilhões no primeiro semestre de 2025 e R$ 68,2 trilhões no segundo. O total anual foi de R$ 127,9 trilhões, em 150,9 bilhões de transações.

A alíquota implícita não é 2%

Dividir a meta de R$ 1,828 trilhão pelo volume de R$ 127,9 trilhões produz uma alíquota mecânica de 1,429%. Se 2% incidissem uma única vez sobre todo o volume informado pelo Banco Central, o resultado bruto seria R$ 2,558 trilhões. Se a expressão “2% em cada lançamento a débito e a crédito” significar cobrança independente nos dois lados da mesma transferência, a conta mecânica alcançaria R$ 5,116 trilhões.

Esses dois resultados não são previsões de arrecadação. São testes de consistência. O volume divulgado pelo Banco Central não equivale a uma base tributável pronta. Uma mesma renda pode circular muitas vezes, transferências entre contas do mesmo titular podem aparecer no fluxo, operações financeiras podem girar valores muito superiores à atividade econômica e parte das movimentações precisaria receber isenção, devolução ou tratamento específico.

Por isso, a pergunta decisiva não é apenas qual será a alíquota. É qual parcela dos R$ 127,9 trilhões seria efetivamente tributada, quantas vezes cada operação econômica seria alcançada e quais fluxos ficariam fora da cobrança. Sem essa ponte, o programa combina uma alíquota nominal de 2% com uma necessidade de receita equivalente a 1,429% do volume bruto, mas não mostra como chega de uma medida à outra.

Cascata, exportações e fuga para outros meios

O próprio programa reconhece obstáculos relevantes. Um tributo sobre movimentação financeira tende a se acumular em cadeias longas, porque cada pagamento entre fornecedores pode gerar nova cobrança. O documento prevê devolução para exportadores e compensação para setores mais expostos, mas não apresenta o custo dessas medidas nem uma simulação por cadeia produtiva.

Também há risco de migração para dinheiro ou meios alternativos. A resposta proposta inclui limites para pagamentos em espécie, retirada de cédulas de maior valor, tributação maior sobre saques e instrumentos de rastreabilidade. Isso exigiria fiscalização, desenho jurídico e capacidade operacional além da simples retenção automática pelos bancos.

Há ainda uma diferença de escala que merece atenção. A Receita Federal informou arrecadação total de R$ 2,886 trilhões em 2025, enquanto a carga tributária bruta do governo geral foi estimada pelo Tesouro em 32,40% do PIB. O Imposto Único não substituiria toda a arrecadação brasileira, apenas o conjunto federal listado no programa. Comparar fluxo financeiro com PIB ou receita tributária, portanto, não prova viabilidade nem inviabilidade. Mostra apenas que as bases são diferentes e precisam ser reconciliadas.

O que seria necessário para a promessa virar política executável

Uma conta verificável precisaria publicar a base líquida após exclusões, o tratamento de transferências próprias, a incidência em operações de crédito e mercado financeiro, a estimativa de mudança de comportamento, o custo das devoluções e a distribuição do impacto por setor. Também seria necessário mostrar como a União preservaria transferências constitucionais e receitas vinculadas durante a transição.

O mérito do programa está em reconhecer parte desses problemas e oferecer um caminho legislativo. A lacuna está na reconciliação entre alíquota, base e receita. Sem ela, os números parecem completos, mas ainda não formam uma mesma equação.

Veja o carrossel completo em PDF.

Fontes

Proposta de Governo do Democrata, Tribunal Superior Eleitoral, setembro de 2026, páginas 7 a 15. https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/arquivos/proposta-democrata

Estatísticas de pagamentos de varejo e de cartões no Brasil, primeiro semestre de 2025, Banco Central do Brasil, 10 de novembro de 2025. https://www.bcb.gov.br/detalhenoticia/20920/nota

Estatísticas de pagamentos de varejo e de cartões no Brasil, segundo semestre de 2025, Banco Central do Brasil, 7 de abril de 2026. https://www.bcb.gov.br/detalhenoticia/21079/nota

Arrecadação de receitas federais alcança R$ 2,886 trilhões em 2025, Receita Federal, janeiro de 2026. https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/noticias/2026/janeiro/arrecadacao-de-receitas-federais-alcanca-r-2-886-trilhoes-em-2025

Carga Tributária do Governo Geral 2025, Tesouro Nacional, 10 de abril de 2026. https://www.tesourotransparente.gov.br/publicacoes/carga-tributaria-do-governo-geral/2025/114


Execução em 4 anos: 🟡 amarelo 5/10. O caminho jurídico e a transição estão descritos, mas a implementação integral ainda depende de base tributável reconciliada, compensações setoriais, controle de evasão e maioria constitucional. Nota provisória, confiança baixa. Avaliação editorial, não probabilidade estatística.

Nota metodológica: viabilidade jurídica e legislativa 1 + financiamento 1 + capacidade administrativa 1 + condições técnicas e econômicas 1 + cronograma de quatro anos 1 = 5/10.

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